Antes que a explosão ocorra
Uma guerra civil patrocinada. Essa é a dimensão que infelizmente já pode ser dada ao conflito agrário no Brasil, no momento em que as possibilidades de negociações tornaram-se obsoletas por falta de vontade das partes envolvidas e por flagrante omissão do Estado na intermediação e consequente busca de soluções.
Ainda assim, a avaliação que resta é a de que as partes, de um lado os sem-terra e de outro os proprietários rurais, devem merecer menos culpa, pois a omissão é mais grave. Evidente, em alguns dos embates há excessos tanto de um quanto de outro lado, mas até estas situações são provocadas por outras, como se percebe: se não há rigor no tratamento da questão, os abusos acontecem, principalmente quando o clima predominante é o do puro confronto, uma vez que bandeiras de lutas deixaram de ser prioridades e a ordem é aproveitar a condição de impunidade para ganhar terreno.
O recente discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, bronqueado com os líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, o MST, pouca repercussão teve. Num tom enérgico, o presidente advertiu que ninguém faria no Brasil uma reforma agrária na força, pois o processo deveria ocorrer de acordo com as possibilidades constitucionais. Correto o presidente.
Mas, ao que parece, a lentidão do processo e sobretudo a falta de propostas concretas visando, ao menos, o encaminhamento da questão, desencadeou movimentos oportunistas. Se o governo não faz, nós fazemos. Seria mais ou menos isso. E como também para esta condição a resposta do governo é demorada, a idéia de impunidade nos excessos, cometidos em alguns casos por ambas as partes diretamente envolvidas no conflito, resulta em mais abusos.
De toda esta situação, a conclusão é de que para manter a ordem e eliminar o risco de um Estado com mobilizações anárquicas há necessidade do proporcional endurecimento. Ainda estão na lembrança dos brasileiros o vandalismo promovido por segmento pequeno, mas forte do funcionalismo público, durante as negociações da proposta de reforma da Previdência, quando vidros foram estilhaçados e o patrimônio público prejudicado. É importante salientar que os estragos físicos, apesar de custarem aos bolsos dos contribuintes, representam pouco em relação aos prejuízos causados à integralidade do Estado que nos representa. Se o poder é tratado com chutes diante de câmeras fotográficas e de televisão, restando aos agressores apenas a possibilidade de pena, então a idéia que a população passa a ter dele é de efeito desastroso.
No caso do conflito agrário, já se noticiam mortes. Sem-terra bloqueiam postos de pedágio, interditam rodovias e ameaçam de um lado. No outro extremo, grupos de fazendeiros se armam, organizando suas próprias milícias. A continuar com está, as consequências serão graves, pois os ânimos se acirram e as provocações terminam em violência. Evitar a explosão é papel do governo. Se não há como dar solução imediata para o problema, que se promova o debate sério, visando negociações com resultados que possam ser cumpridos.

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