Jogo do poder

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva agora tem pressa e cutuca os seus assessores. A urgência está relacionada a uma situação que preocupa o governo, não pelo fato da economia estar estagnada, ou devido à emergência de um plano capaz de eliminar a toque de caixa a paradeira que assusta o setor produtivo e a população em geral. O temor é da repercussão sobre o loteamento político do governo, em que o nepotismo e a partidarização da máquina administrativa federal começam a ser denunciados. Em linguagem coloquial, significa que os casos de contratações de parentes de pessoas que ocupam cargos de primeiro escalão estão aparecendo. E também que as vagas de emprego aberta para alguns simpatizantes do governo deixam de ser desconhecidas.
Claro, o principal bombardeio vem do partido que esteve no governo antes do PT de Lula da Silva, o PSDB de Fernando Henrique Cardoso. Mas isto de forma alguma invalida denúncias, desde que feitas com rigor ético e sejam fundamentadas. O alvo do momento é a área da saúde, onde os respingos já mancham o titular da pasta e ameaçam chegar ao Presidente. Os efeitos, por outro lado, escapam dos gabinetes e ganham o conhecimento público.
Na sexta-feira, por exemplo, nove dos 10 conselheiros da Câmara Técnica de Medicamentos, nomeados no governo passado, pediram exoneração. A Cateme, como é conhecida, está vinculada à Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa. Cabe lembrar que os conselheiros não recebem salários e, ao que se percebe, desempenham função estritamente técnica, na avaliação e aprovação, ou não, de novos remédios para o mercado. A queixa dos ex-conselheiros é de que estaria ocorrendo interferências do partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que eles chama de patrulhamento ideológico.
Pois bem, a política é exatamente isso. O PT de Lula da Silva, que antes denunciava o PSDB de Fernando Henrique Cardoso, agora se põe na condição de vidraça. Jogos de interesses, obviamente, contornam este jogo do poder. Mas há interesses que parecem apenas de grupos, mas acabam adquirindo importância nacional tamanha é a gravidade do que se esconde e, de quebra, tanto é o prejuízo que causam. Há outros, de causa e efeito ínfimos para a sociedade, no entanto importantes de serem revelados para que não se permita que de grão em grão se cometam grandes pecados capitais. E há os blefes, alardeados apenas para gerar instabilidade de quem está no poder.
Cabe, assim, à população, com a ajuda dos setores sensatos da crítica, incluindo os meios de comunicação, a análise caso a caso. Empreguismo é condição comum, mas condenável, em qualquer mudança de governo. Parentes e amigos de políticos e técnicos conceituados da esfera governamental têm, os mesmos direitos e as mesmas obrigações do resto da população. Leia-se que o referido resto na verdade é a parte que mais merece respeito. E se esta parte se emprega através de testes e concursos, seja na iniciativa privada ou nas estatais, parentes e amigos devem fazer o mesmo.
Quanto aos interesses, cabe avaliar se estes interessam realmente a quem. Se for para a população brasileira, não há o que contestar. Se for para privilegiar grupos, que a parte interessada, seja governo ou oposição, não use do povo para ganhar pontos.

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