OPINIÃO DA FOLHA
Patriotismo forçado
O 7 de Setembro tem para a maioria da população brasileira um valor puramente simbólico e há anos é lembrado apenas com os desfiles cívicos e militares realizados nos vários cantos do País. A origem da desimportância que se dá à data, que comemora a Independência do Brasil, é histórica. A própria independência é questionada por destacados historiadores, tendo o grito do Ipiranga valor patriótico mais na literatura didática do que nas narrativas cronológicas sobre as políticas que circularam o Brasil a partir do descobrimento.
Ufanismo à parte. A idéia de um país neuroticamente simbolizado por escudos, flâmulas, brasões, estandartes e hinos é falsa. Basta o Ouro Para o Bem do Brasil, lá na década de 60, uma campanha que subtraiu dos lares brasileiros o pouco que as famílias tinham guardado do vil metal, sobra de correntinhas com os fechos arrebentados, coroas dentárias substituídas e aneís ou alianças descartados. Aquela, aliás, foi uma prova de patriotismo. Escolares marchavam pelas ruras das grandes cidade, inclusive Londrina, puxados por seus professores, para levar o ouro de seus pais nos locais onde eram recebidas as doações. Formavam grandes filas e recebiam em troca um anel de metal barato, com a inscrição ''Dei ouro para o bem do Brasil''.
E o que o Brasil-Estado deu em retribuição? A mais marcante das devoluções ocorreu na forma de estalos. Exatamente, os zunidos das chibatas, manipuladas pelas mãos de um regime militar que obrigou as crianças a decorar o patriotismo, e não a absorvê-lo, digeri-lo, assumi-lo. E aos que se manifestaram contrários, o que foi dado foi o cárcere, as privações, o estatus da subversão. No colégios e nas universidades os agentes do sistema passaram a ser mais importantes que os mestres. Um ''oi'' atravessado merecia fichamento, enviado posteriormente à polícia política.
Assim, o regime criou gerações de revoltados, entre eles os que equivocadamente traziam em suas jaquetas militares as bandeiras dos Estados Unidos e tomavam refrigerante fabricado por multionacional, ao mesmo tempo em que criticavam o imperialismo americano. Essas contradições já eram os resultados da cultura que foi negada nas escolas brasileiras, pois pensar era perigoso. E, quando se pensou sem restrições, o objeto do pensamento foi a cultura imposta e importada.
Mas a retribuição do Brasil-Estado, em seu ímpeto de formar eleitores, e não povo, esperou a abertura política chegar, com o seu pluripartidarismo enlouquecedor, para manchar desta vez com restrições econômicas a cultura nacional. E deu-se o desemprego, a falta de políticas econômicas e sociais, a falta de atenção à população.
Infelizmente, esta história não termina por aqui. O Brasil das mudanças, uma promessa de campanha eleitoral, ainda está longe de acontecer. Reportagens especiais na edição deste domingo mostram o que está acontecendo.





