Desaceleração forte ou prolongada

Como num teste para o consumidor avaliar o desempenho dos lançamentos automobilísticos, os movimentos da economia – com o perdão dos economistas pela popularização de alguns termos técnicos – também são medidos num painel, ao que se supõe, dotado de inúmeros contadores digitais de precisão. Desaceleração forte no segundo trimestre, justifica o diretor de Política Monetária do Banco Central, Afonso Sant‘Anna Bevilaqua, ao defender que o Brasil não enfrenta uma recessão, conforme aponta levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
  Ele, que já integrou os quadros do Fundo Monetário Internacional (FMI), deve entender pouco deste aspecto da física, o que trata da estagnação, aceleração e desaceleração, mas o mercado o tem como especialista quando as mesmas palavras são vinculadas à inflação e à recessão. Cá para o cidadão leigo em matéria de economia, tudo o que infla estoura quando chega-se ao ponto da saturação. E, quando ocorre o contrário, também o efeito será o inverso: uma parada, de efeito tão nocivo quanto a explosão, visto que não se consome e, por tabela, também não se produz.
  Pois recessão, segundo este especialista, é um termo utilizado para uma desaceleração prolongada, ‘‘disseminada por todos os setores da economia e de forte intensidade’’. Enquanto o que vivemos, explica o diretor de Política Monetária do Banco Central, é uma forte desaceleração somente no segundo trimestre. A duração seria curta, portanto. E dá-lhe justificativas. Tal como: a maior determinante da queda na renda real nos últimos meses foi a aceleração da inflação. Isso, o mais excluído dos brasileiros já sabia, embora definindo-a em linguagem popular, no jeito do cidadão dizer que a situação está apertada.
  Ou seja, no carro, chega-se mais rápido e com mais risco pisando fundo no acelerador. Na economia, quando se infla em ritmo acelerado o risco também é maior. E o trabalhador perde renda e poder de compra. Fácil, muito fácil. Até interpretável a versão das nossas autoridades econômicas, percebendo-se que, exceto no uso de termos técnicos e restritos aos especialistas, as explicações sobre as causas e os efeitos dos movimentos da economia são simples.
  Como também as soluções: a função precípua do Banco Central é evitar quedas adicionais na renda real, por meio da estabilização da inflação. Confira o leitor, como as soluções para o Brasil são menos misteriosas e complexas do que se imaginava. Só falta mostrar à população como isso pode ser feito, porque, no discurso, a resolução dos problemas nacionais parece estar ao alcance das mãos. Quem dera.

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