OPINIÃO DA FOLHA
A omissão é de todos
Embora o discurso pareça vencido e teimoso na leitura de alguns analistas, é fundamentalmente importante que se trate a perda de valores culturais, éticos e morais a que a sociedade brasileira está submetida a uma série de desarranjos feitos nos últimos anos, somada ao desprezo com que o homem vem sendo tratado pelo Estado. No entanto, é descabido relacionar tal situação somente ao Brasil origem, da colonização portuguesa, com os deserdados de direitos civis devido aos crimes que praticaram lotando as embarcações para pisar o solo brasileiro com ímpetos de anarquistas e ações de bárbaros, principalmente sobre a população nativa.
Essa é apenas uma das realidades, pois a ela muitas outras se acumularam. Em períodos mais recentes da história, por exemplo, a submissão política do Estado aos desejos das grandes potências contribuiu decisivamente para a formação de uma cultura sem cor e nem cheiro. E os valores foram se perdendo, sobretudo os culturais. O Brasil da ditadura militar fez das jaquetas militares com bandeiras norte-americanas símbolos de uma geração, como se a pátria estivesse lá, e não aqui. Pudera, o que tinha esta pátria a oferecer a não ser o rigoroso controle da cultura nacional, com a censura multilando idéias? Se todo o pensamento brasileiro era interpretado como subversão ao sistema, então a juventude só tinha mesmo é que valorizar o que não era daqui, da música aos costumes.
Mas a ditadura é coisa de pouco mais de uma década. O tempo é curto, é provável que seus efeitos ainda sejam fortes em algumas gerações. Talvez por isso a população brasileira tenha tanto receio de se mobilizar, exceto alguns distintos segmentos. Ocorre, também, de uma manifestação por causa justa acabar em tumulto, porque alguns se excedem e a polícia ainda usa a técnica do passado: em vez do controle da situação, cassetete.
Assim, sem perspectiva, com a cultura baleada e carente de fundamentos que possibilitem a valorização da moral e da ética, cria-se uma nova geração de indisciplinados. Reportagem na edição deste domingo é prova disso. O professor, que se não era valorizado salarialmente pelo menos merecia respeito, foi transformado em refém na sala de aula.
De mãos atadas diante de turmas de alunos que vão às escolas sem saber o que vai ser o futuro e ele, por enquanto, é incerto tanto quanto as autoridades que nos representam , os mestres tentam ensinar sob ameaças e tentativas de agressões.
De tudo isso, inútil dizer que a nova geração é indisciplinada. Melhor considerar que assim se formaram, porque nada ou muito pouco foi feito pelo Estado para mostrar aos adolescentes que existe um caminho, uma luz no fim do túnel. A omissão, portanto, é também de todos.





