O cidadão é o refém
Cartas na mesa. O embaralhado plano do governo federal para o futuro inclui jogadas que vão pegar o setor empresarial e a população em geral de surpresa. Na quinta-feira, o Congresso Nacional recebeu a proposta do Orçamento para o ano de 2004 e nela está previsto o aumento da carga tributária de R$ 7,6 bilhões em relação a 2003. E vejam: metade dos gastos com custeio e investimentos programados depende dos votos de deputados e senadores em reformas constitucionais e projetos de lei em tramitação na esfera do Legislativo federal.
Então, o que se vislumbra é o aumento da fome da máquina arrecadadora. A máquina administrativa do Estado, ao contrário de sofrer um enxugamento em setores burocráticos, para que serviços essenciais à população não sofram panes por falta de recursos humanos, incha e custa muito caro.
É a mesma história que se repete após cada processo eleitoral, com a entrada dos vencedores no poder. Apadrinhados assumem vagas que não existiam nos setores onde foram alojados, pois nem sempre estes têm habilidades para funções disponíveis. Improvisam-se mesas, arranjam-se mais cadeiras, consertam-se computadores para encaixar pessoas de perfil prioritariamente político, quando faltam técnicos para diferentes setores. Em questão de poucos meses, já viciados numa rotina de pouca cobrança profissional, os alojados transformam-se em fantasmas. Ou, quando muito, vão aparecer nas solenidades oficiais e nas peladas de futebol dos fins de semana, como pessoas importantes de um escalão privilegiado do governo.
Quem banca o serviço público é o povo. E no meio desse povo estão, inclusive, os beneficiados com os programas assistencialistas, pois estes também consomem, mesmo que em menor proporção que alguns outros, mas participam indiretamente do enorme bolo que forma a carga tributária que vai para o Estado, nas compras que fazem para sobreviver. Se não adquirem roupas com frequência, pagam com seus benefícios o arroz e o feijão que vai para a mesa.
E o almoço e o jantar, quando sobra dinheiro para as duas refeições diárias, têm impostos embutidos. A cadeia produtiva é voraz e costuma jogar para as suas duas pontas os reajustes provocados pelas mãos do Estado. A primeira ponta é a do produtor, que banca mão-de-obra, matéria-prima, aumento de luz, água, telefone, aluguel e custo de vida sem poder repassar esses custos para o intermediário. Na última ponta está o consumidor, que paga mais caro porque a gasolina subiu, o frete se tornou mais caro, o pedágio é alto e a conta de energia elétrica do supermercado cresceu.
Analise ainda o leitor: quem bancou os programas assistenciais do Estado também foi o povo, com o imposto de renda, a CPMF, o IPI embutido nos produtos que consome e, enfim, em todo o seu cotidiano. Viver custa caro numa economia que faz do cidadão estritamente uma fonte de recursos, devolvendo pouco por tudo o que ele paga. O ser humano torna-se também um eterno refém do Estado, ao não ter a possibilidade de projetar o seu futuro e ficar cercado pelo sistema do nascimento à morte, como já dizia uma antiga canção popular: paga-se para nascer, paga-se para viver, paga-se para morrer.

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