Combate à impunidade

Episódio registrado na manhã de quarta-feira em Londrina mostra como a legislação torna-se frágil quando alguns vícios do passado são incorporados à cultura e se transformam em algo aceitável. Durante um protesto de moradores na Zona Norte, um policial militar, provavelmente em horário de folga, sacou de uma arma para abrir passagem entre as pessoas que participavam da manifestação. Tudo isso enquanto equipes de televisão, rádio e jornal mantinham seus profissionais trabalhando no local para fazer a cobertura da mobilização.
  Mas numa flagrante demonstração de abuso de autoridade, o policial, à paisana, decidiu fazer valer sua prepotência. Pior do que isso: empunhou uma arma num meio onde a presença de crianças era expressiva. E, dentre os adultos, ninguém no local era bandido. O protesto era contra a falta de segurança de uma rodovia, onde os acidentes são constantes e recentemente foi registrada uma vítima fatal.
  A demonstração de poder ocorre no momento em que a discussão nacional sobre o porte de arma ainda nem esfriou. Mas nem é essa a questão a ser debatida neste momento. Ocorre que um estudante de 17 anos foi levado para a delegacia, por ter sido a pessoa que, durante o protesto, impediu o policial militar de passar pelo local com sua motoneta. Claro, causou reação negativa do impedido, que resolveu apelar para a arma que apontava e transformou a manifestação em um confusão. Mas, por estranho que parece, só o estudante foi detido. Aquele que sacou da arma seguiu impune.
  Eis uma clara prova de manutenção do vício. Coleguismo? Protecionismo? Corporativismo? E esse vício, como enfatizado acima, virou cultura, cuja origem é antiga. Primeiro, com o medo da população em relação aos fardados, que em outras épocas faziam e desfaziam em troca da proteção que o Estado garantia à violência policial sob a justificativa da manutenção da ordem política. Depois, em desastrosa sequência, por ser a polícia, em suas diferentes categorias, ter merecido o estigma de coisa ruim, devido ao envolvimento de alguns de seus integrantes com a bandidagem. E, agora, por culpa da impunidade.
  Fotografias de jornais e imagens gravadas por equipes de televisão mostram o policial militar, à paisana, armado entre os moradores que protestam. Mas só o adolescente que o impediu de passar pelo local foi levado para a delegacia. Então, se a Polícia Militar, diante do flagrante mostrado no mesmo dia pelos programas jornalísticos de televisão promete providências, com a abertura de um procedimento administrativo, deve incluir nas apurações quais foram os policiais que atenderam o caso. Ao que parece, estes também devem ser investigados, pois o comando da corporação, já no final da tarde, nem sabia o nome daquele que, em nome de uma condição profissional, entende que uma arma pode ser empunhada em qualquer lugar só para mostrar força.

mockup