Responsabilidade com a população

Enquanto a Reforma da Previdência passa pela esfera legislativa sem causar qualquer incômodo aos setores que usaram da força de pressão para terem privilégios mantidos ou melhorados, milhares de cidadãos tentaram, a partir de ontem data em que foram abertas algumas das agências do INSS no País após um longo período de greve , regularizar suas situações junto ao órgão ou receber informações de benefícios que não vieram durante a paralisação. Também recorreram às agências trabalhadores que tiveram licenças médicas ou de maternidade encerradas na greve, mas não podem retornar ao trabalho sem a devida perícia emitida pelo órgão.
Só no Paraná, conforme admite a superintendência do INSS, cerca de 160 mil pessoas deixaram de ser atendidas no período. Isto porque, em se tratando de serviço público, os funcionários do órgão estavam justamente participando da greve. E a greve era para garantir aos servidores públicos manutenção ou melhoria das condições na Reforma da Previdência.
A avaliação, hoje, é de que a proposta encaminhada pelo governo ao Congresso Nacional e anunciada como avanço foi transformada numa colcha de retalhos que nem escondeu os cerzidos do pano amarrotado e puído em que foi transformada a Previdência nacional. Em síntese, não houve avanços. Pelo contrário, pode ser que até sejam detectados retrocessos. E as contas deste gigantesco sistema, estouradas em valor que o mais simples dos trabalhadores jamais imagina quanto é, continuarão no rombo.
O cidadão empregado na iniciativa privada nem soube o que se discutiu a seu respeito, pois durante toda a fase de acertos da proposta do governo, Brasília foi transformada quase em um mercado persa, onde o termo negociação foi muito bem empregado por lobistas e grupos de pressão. Claro, a analogia ao mercado não faz qualquer referência à eventual compra de condições. Mas não se pode negar que, se não todos, mas alguns parlamentares, mais pensaram no conforto diante dos que pressionaram do que na sua base política, que inclui, certamente, trabalhadores do serviço público e da iniciativa privada.
Além de mercado, segmentos distintos do funcionalismo público também resolveram transformar Brasília em praça de guerra durante as discussões da Reforma Tributária. Manifestações adquiriram tom de baderna e, em consequência, o vandalismo estilhaçou bens públicos, construídos com o dinheiro do cidadão. A promessa foi de investigações para apurar os responsáveis, mas até o momento não se sabe a que chegaram os inquéritos.
Agora, na reabertura das agências do INSS após prolongada greve, é justamente a parte mais desprezada pelos políticos e pelos servidores públicos que mais uma vez sofre com um atendimento que, segundo o próprio INSS, deverá ser normalizado só dentro de um mês. Ontem, algumas agências não reabriram suas portas, porque os funcionários estariam atualizando os serviços burocráticos. É o Estado que temos, em que a burocracia é muito mais importante que o cidadão que tem direito a um atendimento digno, pois este não está esmolando uma condição, mas apenas fazendo prevalecer os seus direitos, se bem que com uma humildade exagerada diante da desatenção violenta do sistema.
Talvez seja agora a hora do trabalhador e do empregador da iniciativa privada fazer a sua greve. É possível que o Estado entenda que se o sistema existe, funciona, inclusive em sua estrutura de manutenção, graças à população. É uma relação clara que alguns homens públicos ainda fazem de conta que não entendem.

mockup