Fantasmas criados pelo vício político
Um plano de demissões voluntárias para espantar fantasmas. Por mais absurdo que pareça, esta é uma necessidade dos poderes constituídos e de forma alguma refere-se à contratação de alguém para eliminar almas que transitem pelos corredores dos palácios governamentais ou do Legislativo na escuridão das madrugadas. Os fantasmas estão nas prefeituras, nas câmaras municipais, nos governos estaduais, nas assembléias legislativas e em Brasília, incluindo os do Judiciário e de incontáveis órgãos federais, estaduais ou municipais indiretos, mas nem frequentam os locais onde deveriam estar trabalhando.
A mais recente tentativa de acabar com a folga de funcionários que não cumprem expediente é da Assembléia Legislativa do Paraná. Não deveria haver essa necessidade, partindo-se da suposição de que tudo o que envolve o dinheiro público é controlado com rigor. E se fosse realmente assim, o Legislativo, como é o caso atual, tanto quanto o Executivo e o Judiciário, teriam que ter em mãos toda a situação de seus funcionários.
O presidente da Assembléia Legislativa do Paraná justifica que o Plano de Demissões Voluntárias (PDV) é necessário para ajustar as finanças da casa e, consequentemente, possibilitar a implantação do Plano de Cargos e Salários reivindicado pelos servidores. Seriam hoje, segundo ele, 486 funcionários de carreira e a expectativa com as demissões voluntárias é enxugar o quadro para cerca de 200 pessoas.
Mas eis que surgem outros números, capazes de indignar o cidadão que paga impostos e tem consciência que a coisa pública é mantida com o seu dinheiro. No total, são 54 deputados estaduais e 486 servidores de carreira, estes diretamente ligados ao funcionamento da máquina legislativa estadual. Somados o pessoal que trabalha nos gabinetes parlamentares, o total sobe para 2.993 funcionários, de acordo com números do próprio presidente da Assembléia Legislativa. É, realmente, uma supermáquina bancada pela população. E imagine o leitor que há cerca de dois anos as demissões voluntárias já haviam feito um enxugamento e, por ordem da Justiça do Trabalho, outros cerca de 2.400 celetistas foram colocados para fora do Legislativo paranaense.
Ainda assim, a presidência e a secretaria da Casa reclamam da defasagem no quadro de pessoal, pois estariam faltando trabalhadores para alguns serviços essenciais. Pode ser real essa necessidade. Mas antes de se contratar, vale para a coisa pública a mesma regra que é adotada pela iniciativa privada. Ou seja, o enxugamento proposto deve ser trabalhado de forma a sanear setores onde a ociosidade é visível, e essa não parece ser uma tarefa difícil, a considerar os números: de 486, redução para cerca de 200, o que evidencia sobra de gente em muitas escrivaninhas. É até possível imaginar a razão da preocupação com os fantasmas.
Por uma questão de bom senso, só depois de consertada essa parte é que se deve pensar em contratações, agora sim para fazer a máquina funcionar ajustada, com todas as peças necessárias. E sem estoque, pois mão-de-obra não é matéria-prima. Em clima de rigor, fantasmas deixam de ser uma condição imposta por uma cultura viciada e passam a ser coisa de outro mundo.

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