Salário-família para o pão e o leite
O salário-família, tema de reportagem especial deste jornal em seu Primeiro Caderno, deste domingo, mais do que uma piada brasileira é a prova contundente de como o governo avalia o trabalhador. Hoje em R$ 13,38 e válido somente para quem tem filhos de até 14 anos para inválidos, a validade é para qualquer idade , o dito benefício é concedido para os assalariados que recebem, no máximo, R$ 560,81 por mês.
Baseado na Declaração dos Direitos Humanos, o salário-família foi criado em 1963, por idéia de um deputado federal da época, André Franco Montoro. Quarenta anos depois, o advogado londrinense Cesar Bessa, consultado pela reportagem da Folha, lembra que o benefício foi institucionalizado para suprir o consumo de pão e leite de uma criança pelo período de um mês. Mas é ele mesmo quem diz que hoje o salário-família não passa de uma hipocrisia, pois apenas garante que o Brasil cumpra convenções e tratados internacionais.
Leite e pão durante um mês para a criança com os R$ 13,38. Impossível. Confira o leitor o depoimento do trabalhador Jailton Lourenço da Silva: ''Se eu fosse comprar um litro de leite pra cada filho ele tem três filhos eu gastaria R$ 27,00 por mês.''
Há, porém, um outro aspecto a ser analisado, cujo teor jamais deve ser aplicado ao Brasil. Alguns países desenvolvidos, onde a população passa por um acelerado processo de envelhecimento, estimulam a geração de filhos pelos casais concedendo benefícios. Nessas sociedades, um dos custos do desenvolvimento foi a redução do número de filhos pelos casais, eis que a dinâmica da família moderna criou mulheres e homens atarefados, até com excesso de atividades profissionais e de estudos. Campanhas de um recente passado, desestimulando grande quantidade de filhos, também contribuiram para o atual quadro, que exige reversão. Na verdade, o risco da superpopulação foi sempre um pesadelo mundial.
Como se percebe, não é o caso do Brasil. O salário-família foi criado para suprir o pão e o leite por um mês, mas dá mal para o leite da mais baixa categoria por apenas 13 dias. Nunca foi e nunca será, portanto, estimulador de geração de filhos. E como afirma o advogado londrinense, se não serve apenas para cumprir convenções e tratados internacionais, a outra serventia que lhe resta é o de ser mais um item na folha de pagamento.
Um crédito, que como tantos outros, incluindo o salário mínimo, é prova direta da má distribuição de renda e das injustiças sociais que têm como vítimas a maioria da população brasileira.

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