De Lula a Frutos
A direita vira-se para a esquerda e esta endireita-se. A América Latina passa por transformações expressivas nos últimos anos, desde que o regime militar implantado na maioria dos seus países pelos Estados Unidos começou a perder forças e, como uma coisa está diretamente ligada a outra, a ditadura foi, aos pouco, cedendo lugar à democracia. Em teoria, pois os governos que se sucederam adotaram, por força da legislação, os conceitos básicos do ir e vir, votar e ser votado, ter trabalho, casa e comida. Na prática, populações inteiras revigoraram-se com os acenos: de melhorias aqui, transformações ali.
Duas ou três décadas passadas, dependendo das situações por quais passaram cada um desses países, ainda é pouco visível por aqui uma democracia que possa ser considerada plena. Sim, os votos legitimando mandatos, a maior liberdade de manifestação, o ir e vir, entre outros, tornaram-se tão corriqueiros que já não causam estranheza, como nos primeiros tempos do Brasil da abertura, lá pelos anos 80, quando ainda se falava aos cochichos quando o tema era política.
Mas a essência, que inclui a ética e a moral, parece que não evoluiu. Voltando ao caso do Brasil, basta lembrar que um dos sinais de novos tempos transpareceu com o pluripartidarismo, no lugar do então incansável e combativo Movimento Democrático Brasileiro, o MDB, e da situacionista Aliança Renovadora Nacional, a Arena. Não só com a abertura, mas principalmente fruto da maturidade dos partidos que surgiram, esperava-se que estes contribuíssem para a formação de uma cultura política exemplar, com bases, meio e tetos firmes. Ao contrário, porém, os partidos tornaram-se incolores, indefinidos, sem propostas, indolores.
Agora, não se sabe se é o partido que faz o político ou se é o político que faz o partido. Resta a impressão de prevalecer um jogo de oportunismo, em que as cincurstâncias tornam determinadas filiações possíveis. E, nos acertos entre governos e bancadas, a negociação, no sentido pejorativo, tomou o lugar de um acordo bem feito, cujo resultado seja justo para ambos os lados, governo e parlamentares, mas principalmente para a população. Assim também surgem os partidos divididos. O PT não é um só, e o governo federal, eleito por esta sigla, sabe bem disso.
Saindo do Brasil, o Paraguai, do presidente empossado Nicanor Duarte Frutos, passa por situação parecida. Ele é Colorado, mas critica o Partido Colorado. É sucessor de um presidente Colorado, mas alfineta sem piedade o correligionário, Luis Gonzáles Macchi. Aliás, já sem imunidade, privilégio que perdeu no momento em que deu posse a Nicanor. Macchi deve responder na Justiça pelas denúncias de corrupção contra o seu governo.
E o que tem a ver o Brasil de Lula da Silva com o Paraguai de Frutos. Que os frutos sejam saborosos para ambas as populações, no mínimo. Aqui, o governo atual é de oposição ao anterior, mas as principais políticas para tirar o País da estagnação parece as mesmas de sempre. Lá, a situação elegeu o sucessor, embora com um discurso contrário ao do próprio partido. Que não fique somente no discurso. E o vizinho Paraguai possa ser um dos bons exemplos de democracia na América Latina.

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