Transgênicos: onde o calo aperta

Mesmo que se exclua as questões ambientais e jurídicas da polêmica sobre o plantio e a comercialização de produtos transgênicos no Brasil, eis que tal novela é de muitos capítulos e a queda-de-braço, de incalculável tempo de decisão, se dá na forma de pressões e de embates nos gabinetes dos juízes, o produtor brasileiro deve estar atento para o aspecto da comercialização. O mais expressivo exemplo é o da soja, que desempenha importante papel na balança comercial. Pois já se delineia no comércio exterior quais são os mercados propensos a fechar suas portas para os produtos transgênicos.
E mesmo que se mantenham esses canais de entrada abertos, é duvidável que em países desenvolvidos as populações, devidamente conscientizadas, na ponta final, a do consumo, escolham derivados que tragam em suas embalagens as origens do produto e a tecnologia que foi utilizada para produzi-lo. É indispensável lembrar que na maioria desses países já é lei: se algum componente de determinada mercadoria é de origem transgênica, essa informação deve constar no rótulo da embalagem.
A cultura brasileira ainda não faz o consumidor ficar atento para detalhes que parecem tão inexpressivos e que estão contidos em minúsculos lembretes, de letras de difícil leitura, tal é o tamanho com que foram impressos. Mas populações conscientizadas são rigorosas. Portanto, pode ocorrer de determinado país manter aberta a importação de transgênicos por determinado período, mas a reação do mercado, se não exigir o fechamento das fronteiras, com certeza levará os importadores a procurarem por novas opções. E o produto transgênico brasileiro perderá competitividade, encalhará nos portos, provavelmente nem sairá dos silos construídos nas fazendas.
Basta lembrar que a produção nacional de soja orgânica, que no Paraná tem segmento importante do Oeste do Estado produzindo e exportando em tal modalidade, ganha destaque no cenário internacional. Não se trata mais de um sinal, um alerta para o agricultor brasileiro tecnicamente qualificado migrar para esta forma de produção. Pelo contrário, já há um mercado aberto.
Pelo outro lado, estas mesmas populações que exigem de seus importadores produtos conceitualmente mais puros, com a rotulagem de orgânicos, por exemplo, são excessivamente zelosas quando a questão é o risco de nocividade à saúde. Se a soja transgênica não é recomendada para o consumo humano, de acordo com a avaliação destas pessoas, também não o será para o boi que dias depois estará na mesa de suas famílias, o que significará, de acordo com esta leitura, que de nada adianta o produto transgênico ter passado antes por outro estágio, o consumo animal, se posteriormente a carne deste será consumida pelo homem. Assim, chegará o momento em que o transgênico brasileiro nem servirá para compor ração animal.
Daí porque a necessidade do agricultor analisar a questão mercadologicamente. O que pode facilitar a produção hoje, amanhã tende a se tornar um risco para a comercialização.

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