O gol anulado

''Muitas vezes estamos perto do final de um jogo de futebol, há um pênalti para ser batido e o jogo está empatado. Evidentemente, isso configura uma possibilidade de vitória, mas o pênalti tem de ser batido eficazmente e com categoria porque a vitória comemorada antes de sua batida pode levar, inclusive, o chute para fora.''
Bem que poderia ser a análise de um técnico de futebol. Comumente chamada de professor pelos jogadores, este, o da frase, certamente integraria o grupo de profissionais que comandam equipes famosas e ganham notoriedade tanto nos verbos que conjugam quanto nos resultados que obtêm em campo. E, assim, conseguem convencer o torcedor sobre as causas de derrotas, campanhas desastrosas, fases ruins e a má campanha do time como se estivessem ensaiando um discurso.
A frase, no entanto, não é de ninguém diretamente ligado ao futebol. Quem teme o pênalti mal cobrado é o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. E a análise não é, certamente, a das peladas de final de semana que têm como dono do time, da bola, do jogo de camisas, das cervejas e do churrasco - estes dois últimos troféus para vencedores e perdedores - o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
''É prematuro declarar vitória contra a inflação.'' É sobre a economia o comentário do ministro, conforme reportagem publicada ontem por este jornal, em seu caderno Folha Economia. Meirelles afirma não ter dúvidas de que a política monetária está mostrando seus efeitos e que o que se colhe agora, se é que algo há para ser colhido, é fruto do que a equipe econômica plantou no início do ano. ''É importante notar que a atividade econômica no Brasil está sendo determinada pelas estruturas de taxas de juros de médio prazo, que se aproximavam de 33%, mesmo quando a Selic estava em torno de 26% ao ano.''
Tem razão o ministro, quando a análise é da inflação. Porém, absurdamente o quadro que se mostra é o de deflação, monstro que é tão nocivo ao País quanto o seu oposto, a inflação. Absurdo porque a taxa básica de juros está nos 24,5%, e com este índice jamais se imaginaria deflação.
Em realidade, o que está ocorrendo é um dos efeitos da estagnação da economia nacional. Não é difícil imaginar o que acontece quando o quadro é este: queda do consumo, desemprego, redução de investimentos da iniciativa privada nos seus negócios, entre outros, formando uma bola de neve. Então, realmente, não deve o governo nem ao menos ensaiar o grito de gol. Pois a bola é de neve, se desmanchará no momento em que o cobrador do pênalti acertar o chute. Não haverá nada para o goleiro defender.

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