OPINIÃO DA FOLHA
E a história continua
Não tanto pelos juízes estaduais, mas pelas artimanhas políticas que no vocabulário popular tem outro nome, tudo vai continuar como sempre foi. Na madrugada de ontem, depois de já firmado na data anterior um acordo, o governo voltou atrás e aceitou o subteto de 90,25% para o judiciário estadual. Como a redundância usada na frase anterior, o voltar atrás, tão naturalmente incorporado às afirmações cotidianas, também a decisão do Palácio não surpreende, para a infelicidade geral da nação.
A quarta-feira foi tensa em Brasília, anuncia a grande imprensa. Um protesto virou baderna e a baderna se transformou em vandalismo. Vidros quebrados, conforme anunciou a Câmara, são os mais inexpressivos dos prejuízos. Afinal, quem paga a conta das reposições são os contribuintes, e não apenas aqueles que pagam diretamente os impostos, mas também os que consomem produtos e serviços e nos preços que pagam por eles também participam da massa que sustenta o Estado.
Mas não foi o Judiciário, com certeza, o responsável pelo acontecimento. Havia até uma acomodação visível do segmento desde a noite de terça, após aprovado o acordo que estabeleceu o subteto salarial dos juízes estaduais em 85,5% da remuneração de ministro do Supremo, ao contrário dos 75% contidos na proposta original da reforma da Previdência. Os 90,25% acertados na madrugada de ontem é o índice atual do subteto, o que significa manutenção. Ou seja, não se mexe nessa parte e tranquiliza-se a situação.
Então o que levou o governo a mais um recuo, além do conforto nas relações com o Judiciário? A maioria dos parlamentares queria isso. Enquanto vândalos quebravam vidros lá fora, dentro, entre bochichos e acertos de bastidor e no plenário, a força-tarefa agiu, fazendo de conta que representava o povo brasileiro.
Que povo? Foi no silêncio da madrugada que tudo aconteceu, mais uma vez. Em horário que a maioria dos cidadãos, estes que de vez em quando constituem o povo, mas na maioria das vezes formam uma massa de manobra política, já estão recolhidos ou se preparam para dormir. Pois passava de 1h30 quando o acordo de ontem começou a ser definido. Mais um acordo, fruto de mais concessões.
Como se o Brasil estivesse reduzido a aquilo ali: um lugar onde se discutem por horas e dias seguidos assuntos que só interessam a poucos, enquanto a maioria da população trabalha e tenta fazer o País funcionar à custa da elevada carga tributária que aqueles poucos, os mesmos que transformam protesto em baderna, baderna em vandalismo, disputam. Redundante dizer, por ora, que assim o País realmente só tende a andar para trás. Porque o recuo é a melhor estratégia quando não há ousadia para as ações ofensivas.





