OPINIÃO DA FOLHA
Nadando contra a maré
A semana pode ser decisiva para o governo no embate sobre a reforma da Previdência, tendo em vista a possibilidade da proposta do executivo entrar em discussão na sessão de amanhã, no Congresso Nacional. Por enquanto, ainda pairam muitas dúvidas sobre o que realmente será discutido. Nos bastidores da Câmara e nos gabinetes dos parlamentares, algumas negociações e muito jogo de pressão ainda devem ocorrer nesta segunda-feira. A estranha negociação dos líderes de bancadas com o Judiciário, na semana passada, para elevar o subteto dos juízes estaduais, provavelmente tenha um desfecho também até a proposta governamental entrar na pauta das discussões.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a despeito da inabilidade do governo para tratar do tema e também de outras questões importantes, tem se mostrado firme no âmbito dos discursos. Ao que parece, há um presidente disposto a mexer, pelo menos um pouco, no que existe para ser mexido, como é o caso da Previdência Social. É onde fica meio transparente que, se o presidente quer o mínimo de mudança, até para começar a honrar o seu compromisso de campanha, há assessores pouco empenhados que mais trabalham contra a pretensão presidencial do que a favor. E o mesmo se diga dos líderes do governo no Congresso Nacional, estes que ainda não assimilaram que a reforma da Previdência pode ser o ponto de partida para uma mudança do País, não somente quanto ao saneamento das contas desta sigla, mas principalmente quanto à busca de uma moralização do sistema. Se assimilaram, pior ainda, pois aí estarão jogando para preservar interesses.
Reportagem especial publicada ontem por este jornal mostra a situação dos aposentados e pensionistas oriundos da iniciativa privada, cuja realidade é radicalmente oposta à dos servidores públicos. Considerando que, só no Paraná são pouco mais de oito mil inativos provenientes do serviço público, em proporção que ultrapassa a metade do pessoal da ativa, calcule o contribuinte quanto ele paga para manter o Estado. Inclua neste orçamento o custo da máquina administrativa, que na esfera municipal é motivo de queixas por parte dos prefeitos, estes que travam acirrada batalha para aumentar suas participações nos bolos federal e estaduais. Adicione o quadro de pessoal de sua prefeitura e dos órgãos diretos e indiretos dos governos estaduais e federal em cada localidade. Tenha em mente que as obras e os programas são tocados com recursos extras, advindas de emendas parlamentares ou financiados por instituições internacionais.
É um cálculo difícil, até porque os operadores das máquinas administrativas não costumam disponibilizar detalhes de suas contas. Mas tenha o contribuinte certeza que mais se paga para fazer a burocracia funcionar, visto esta ter elevado custo para a sociedade, do que para se obter retorno em serviços públicos de inquestionável qualidade. As mortes por falta de vagas nas Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) são as provas mais reais dessa condição que os governos impõem aos seus súditos.





