OPINIÃO DA FOLHA
Quem paga a conta
O números são implacáveis. Em 1992, os salários e ordenados correspondiam a 44% do Produto Interno Bruto (PIB), índice que desabou para 36% em 2002, mostra reportagem que este jornal publicou na edição de ontem, na capa do caderno Folha Economia. Uma das causas da queda da renda do trabalhador brasileiro no período também está explicado na reportagem: ''Para arcar com as consequências da dívida pública cujos juros alimentam o sistema financeiro nacional , o governo subiu tributos nos últimos dez anos, o que, entre outros fatores, causou diminuição de 18,2% na renda do trabalhador no período''.
Antes de se adentrar na análise desta situação, outros números, contidos na reportagem do caderno Folha Economia, devem ser repetidos neste espaço, até para que o leitor tenha bem claro como são feitas as políticas econômicas que, de governo a governo, cada vez mais privilegiam poucos e destróem esperanças de muitos. Pois, por fruto desta mecânica, no mesmo período a arrecadação do governo com impostos, taxas e contribuições saltou de 12% para 19% do Produto Interno Bruto nos últimos anos, resultando em um aumento de 58,3%. E complementa-se ainda que a renda do capital, que é a soma do setor produtivo mais sistema financeiro, nos últimos dez anos ficou estagnada, apresentando inexpressivo salto de 44% para 45% do PIB, enquanto a rentabilidade das empresas do setor produtivo caiu cerca de 80% a partir de 1994 e a dos bancos cresceu 131,1%.
Eis dois índices que merecem ser exaustivamente repetidos: a rentabilidade das empresas do setor produtivo caiu cerca de 80%, enquanto a rentabilidade dos bancos cresceu 131,1%. Este último comparativo é da consultoria Austin Asis, enquanto os anteriores são conclusões de um estudo feito pelo secretário do Trabalho da Prefeitura de São Paulo, Márcio Pochmann, que reforça: além do aumento dos tributos, a renda do trabalhador foi afetada indiretamente pela queda de investimentos na indústria. Nas palavras dele: ''Os riscos baixos e maior rentabilidade do sistema financeiro desviam investimentos da produção, o que impede o crescimento sustentado do País''.
Estudos sérios como estes comprovam que o retrato do Brasil, em branco e preto, é de uma economia parada no tempo e perdida dentro de uma década que não poderia ser subestimada em termos de planejamento para o futuro. Até por isso o discurso de mudança mobilizou a Nação em outubro de 2002, colocando ao redor das urnas trabalhadores e empresários que apostaram na possibilidade de um país com economia que permitisse projetos. ''Como planejar, se o futuro é incerto?'' Esta era a dúvida que predominava.
Então já era tempo da equipe econômica que respalda as ações do homem que venceu as eleições, em nome das mudanças, pensarem numa política econômica capaz de mostrar aos empreendedores uma luz no fim do túnel. O que se faz, até agora, são remendos num continuismo que provou não dar certo.





