OPINIÃO DA FOLHA
Tom assistencialista
A chegada dos primeiros cupons do programa Fome Zero para 250 famílias da zona norte de Londrina, ontem, inegavelmente alivia por um curto espaço de tempo a situação de extrema carência dos beneficiados. Suficiente para a compra de uma cesta de alimentos dessas que se vendem nos supermercados já prontas, além de alguns poucos complementos, o cupom de R$ 50,00 é capaz de zerar a fome de uma família numerosa por poucos dias. Seria, portanto, apenas mais um auxílio para os mais necessitados, cabendo o indispensável trabalho de conscientização para que as famílias não entendam estes e outros benefícios como um recurso salvador.
A proposta do Fome Zero contém, embora timidamente, ferramentas para estimular alternativas de renda para as famílias carentes, incluindo iniciativas comunitárias. Não se tem, porém, notícias de projetos já em andamento em alguma localidade brasileira, o que, com certeza, amenizaria o estigma puramente assistencialista do programa. Na prática, o Fome Zero deveria ser uma proposta emergencial só no que diz respeito ao suprimento da mesa das pessoas assistidas. Ou seja, abastecer de comida a casa do beneficiado, para que ele e seus dependentes tenham o que comer por alguns dias. Em contrapartida, este receberia, além do cupom para zerar a fome, orientações e estímulos para poder produzir e ter renda, senão o suficiente para manter a família, pelo menos para cobrir o orçamento precário que inclui medicamentos, roupas, materiais escolares para os filhos.
A resposta a este tipo de iniciativa viria, evidentemente, a médio ou longo prazo. Ninguém é capaz de ser tornar produtivo de uma hora para outra, após ter enfrentado situação de meses, talvez anos, quem sabe de uma vida toda, de não ter nem mesmo recursos para uma necessidade básica, se alimentar para poder trabalhar. Ainda assim, mesmo com efeito demorado, é leitura comum que um ponto de partida deve ser estabelecido o quanto mais antes, para que os resultados de um programa que se não é caro para o governo, representa custo para a sociedade, possam ser colhidos. Almejaria-se, assim, que dentro de alguns anos essas pessoas não dependessem mais de cupons para aliviar a fome por uma semana, talvez menos, ou pouco mais. Estimuladas, elas teriam um horizonte, e como qualquer cidadão poderiam trabalhar possibilidades. De educar os filhos, de ter uma moradia melhor, de trabalhar e ter renda para o sustento familiar.
O tom do Fome Zero, no entanto, é apenas emergencial nos momentos em que os cupons são distribuidos. Não se cobra responsabilidades por um benefício concedido, o que caracteriza certo desprezo em relação aos beneficiados. Diz-se popularmente que tudo o que é de graça tem pouco ou nenhum valor. É uma verdade, extraída da sabedoria do povo. E quando se dá, simplesmente, sem nada ser exigido em troca, estabelece-se uma relação viciada, com o doador assumindo o papel de bonzinho e o beneficiado o de infeliz. Veste-se a carapuça e institui-se uma república assistencialista, onde cada vez mais novos programas surgem, para atender um contingente infinitamente numeroso de pessoas que decidem viver dos cupons e dos cartões sociais.





