Pesadelo deflacionário
Uma crise ao avesso. Assim pode ser definida a atual situação econômica do Brasil, quando a deflação, algo que na história do País poderia ser considerado bem-vindo, desde que em parâmetros aceitáveis, agora surge como uma ameaça.
Recentemente, a imprensa internacional noticiou a preocupação de governos de países desenvolvidos, onde a taxa básica de juros fica na faixa de 2% ao ano. Ali, reduzir mais os juros representaria problema, inclusive a deflação. Aqui, a Selic caiu esta semana em 1,5%, baixando de 26% ao ano para 24,5% ao ano. A diferença é gritante.
Mas ao contrário de se temer por inflação, diante de juros tão altos, o que se registra é a ocorrência da deflação. Reportagem especial na edição de hoje deste jornal mostra parte da causa deste quadro invertido. Nos depoimentos de consumidores e de empresários do setor de comércio, o que se comprova é que não há consumo.
Compra-se apenas o extremamente necessário e troca-se as marcas de preferência pelos similares de custo mais baixo. A lista doméstica de necessidades mensais passa a ser gradativamente reduzida, com itens de primeira necessidade caindo para um grupo inferior de prioridades.
Se não há consumo, indispensável ingressar em análise aprofundada sobre a queda na produção. Apenas alguns poucos setores ainda resistem, porque produzem para exportação. Já do lado inverso, ainda ontem este espaço tratou da redução dos investimentos estrangeiros no Brasil, em porcentual bastante expressivo: 63% de janeiro a junho de 2003, em comparação com o mesmo período de 2002.
Também ontem, reportagem no caderno Folha Economia expôs a opinião de alguns especialistas sobre a deflação brasileira. Ela não seria ainda suficientemente forte para ser notada pelo consumidor, no caixa dos supermercados, por exemplo. Mas, para os economistas, por menor que seja, é motivo de preocupação.
O que ocorre, para se trabalhar um exemplo comum, é que os grandes fabricantes, após sobrecarregarem o consumidor com altas torturantes, principalmente a partir de outubro de 2002, com a definição de governo e o início do período de deflação, agora são obrigados a vender na base das promoções e até concorrendo com seus próprios produtos.
Uma famosa marca de sabão em pó, por exemplo, tem a embalagem padrão do produto vendida a até R$ 8,00 nos supermercados. Mas oferece a marca, com embalagem e diferenciais diferentes do padrão, por R$ 4,99 sob a justificativa de estar lançando nova opção com preço promocional. Só na compra deste produto, o consumidor estará economizando R$ 3,00.
Não se resolve o problema do consumidor, do varejista, do intermediário, do fabricante e da economia brasileira com a estratégia do sabão. Vulgarmente, se diria que o buraco é mais embaixo. Pode-se camuflar uma situação, mas por pouco tempo. Solução mesmo só com governo. O do Brasil precisa aparecer. Está na hora.

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