OPINIÃO DA FOLHA
Mais um baque econômico
A queda de 63% dos investimentos estrangeiros no Brasil nos seis primeiros meses de 2003, em relação a igual período de 2002, de acordo com dados do Banco Central, é sintomática. Em valores, a situação torna-se mais nítida e preocupante, como se vê: o saldo de capital externo no País, cuja matemática é a relação entre as entradas e as saídas, foi de US$ 3,5 bilhões de janeiro a junho deste ano, enquanto nos seis primeiros meses de 2002 foi de US$ 9,617 bilhões. Há outro detalhe a ser levado em consideração: dos US$ 3,5 bilhões que entraram neste primeiro semestre, US$ 801 milhões, que equivalem a 22,9% do total, são de operações denominadas de conversões, portanto não representaram ingresso efetivo de dólares. Ou seja, na conversão, a empresa faz um acordo com seus credores para pagar suas dívidas em ações da companhia, o que torna o antigo credor mais um sócio da empresa, sem que tenha ocorrido o aporte de novos recursos. No balanço final, portanto, o Brasil recebeu muito menos dólares no período.
A recente visita de comitiva brasileira a Portugal, com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, serviu, mesmo que timidamente, para o governo federal ter a idéia do que o investidor estrangeiro acha do Brasil de agora. Tanto quanto aqui, lá fora também o País das mudanças apregoado em palanques durante a campanha eleitoral ainda não passa de imaginação. Durante evento com empresários portugueses, o representante da comitiva brasileira ouviu queixas, fundamentadas, no momento em que se debatia o Brasil como foco de investimento do empresariado estrangeiro. Os juros altos foram uma das principais queixas, embora outras considerações tenham sido feitas.
E pode, inclusive, ter dose homeopática de razão o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, ao justificar que a situação retratada acima acompanha um movimento de retração que ocorre no mundo inteiro. Para o ministro, o mundo passa por um momento de reflexão, em que os países desenvolvidos registram taxas de crescimento modestas. Até este ponto, explicação validada. Mas equivoca-se ao comparar que a retração dos investimentos vem sendo compensada pelo aumento na captação de recursos via bancos e empresas, quando foi questionado se isso não significaria a simples troca de capital bom por capital ruim. Claro, Palocci negou.
Por mais que negue, porém, a realidade se mostra assustadora. Mesmo com a taxa básica de juros sofrendo redução de apenas 1,5%, caindo de 26% para 24,5% ao ano, a situação que o brasileiro enfrenta hoje é de deflação. Ou seja, o medo de reduzir a taxa básica em porcentual maior, face ao risco da inflação, cai mais uma vez por terra. O problema é que o Brasil está parado. Ou o governo funciona, ou se faz um governo que funcione.





