OPINIÃO DA FOLHA
E a guerra continua
Encerrada a fase dos combates mais violentos, a imprensa internacional desviou do Iraque parte das atenções e redirecionou as lentes das câmeras fotográficas e equipamentos das redes de tevê para outros focos. Bagdá tomada pelo atacante seria o fim da guerra, até porque já estaria consolidada a dominação, na forma de uma espécia de interventor para administrar o país destruído pelos mísseis anti-Saddam.
Engano. Foram então que começaram as ações da resistência, antes acuada diante dos bombardeios acirrados feitos pelo inimigo. E um número considerável de vidas passaram a ser perdidas. Se as baixas norte-americanas e inglesas, durante o calor do conflito, eram consideradas consequências da guerra, arrefecida as brasas dos destroços estas passaram a ser preocupantes. De grão em grão os fiéis ao regime vencido foram contabilizando mortes que tornaram a guerra do Iraque mais violenta que a do Golfo Pérsico, em número de vítimas fatais.
As informações mais recentes dão conta de mais uma vitória norte-americana. A morte de dois filhos do ex-ditador iraquiano atenuariam a frustração dos EUA, cujo governo vive atormentado pelas vozes de Saddam, eventualmente retransmitidas por canais de tevê, como ocorreu esta semana. Feito um fantasma. Udai e Qusai, os filhos abatidos do ex-ditador, eram símbolos de crueldade do regime vencido, como também provas da corrupção que fazia da maioria da população iraquiana um grupo de devotos miseráveis. Com suas coleções de carros importados e mulheres, ambos representavam a ostentação do poder por via de um regime de dominação.
Também os brados de vitória tornaram-se mais visíveis com o anúncio da prisão, na manhã de quarta-feira, daquele que é considerado o número onze da lista de personalidades iraquianas mais procuradas. Barzán Abd Al Gafur Suleimámn Majid Al Tikriti, comandante da Guarda Republicana, caiu nas mãos do Comando Central americano.
Mas falta Saddam Hussein. Falta, com o ex-ditador, justificativas para George W. Bush e o primeiro-ministro inglês, Tony Blair, sobre as denúncias de relatórios fraudados, cujo conteúdo já levou à morte um cientista, oficialmente por suícidio.
A questão, portanto, não é e nunca foi, para os atacantes, a simples queda de um regime de exploração, embora a população iraquiana aplauda o fim da história de terror e apertos impostos por Saddam. Esta seria a parte nobre da guerra, pois, imagina-se, criou perspectivas para os iraquianos de um novo Iraque, livre da corrupção e dos desmandos. A parte ruim é que as rebarbas deixadas pelo conflito ferem, porque se fez uma guerra que não visou aquilo que o país destroçado precisa: a devolução do que o regime desviou do povo.





