Realidade à mostra

A questão não é se o governo fracassou ou venceu no embate sobre a proposta da reforma da Previdência. Infelizmente, o que soa mais forte, no momento, é o sistema frágil que sustenta as coisas da política, o que dá até certo respaldo ao manifesto do grupo dos radicais do Partido dos Trabalhadores, o qual considera o governo atual cópia piorada de FHC. Claro, nem tanto. Mas é assunto para se refletir.
Primeiro foram os servidores públicos a se debelarem contra o governo, respaldados pela Central Única dos Trabalhadores, a CUT, que tem em sua base diferentes categorias profissionais a terem seus interesses defendidos, mas na questão da reforma da Previdência viu-se obrigada, por uma questão circunstancial, a tomar partido do segmento que considera ser mais expressivo. Os governadores também formaram filas no Palácio do Planalto e, como se percebe hoje, tiveram participações mais que devidas na reformulação da proposta.
Também os radicais se alinharam de forma equivocada. Se por um lado trouxeram a verdade às vistas da população, ao tornarem evidente que o PT do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é diferente de outro PT, aquele formado por seguidores da linha ideológica original do partido, por outro não trouxeram contribuições importantes ao governo, ao assumirem a postura do enfrentamento, e não da conversa e consequente negociação.
As aspas estão fora das frases e as arestas provocam ferimentos. A base governista no Congresso Nacional desabafa impropérios. ''O que o governo fez, ao fazer concessões aos governadores, foi atrapalhar a sua base. Lula tem de entender que as negociações com os governadores já passou. Agora, quem negocia e dá as cartas é o Congresso'', afirmou na quinta-feira um dos integrantes dessa base.
E que base. Agora, como se vê, a proposta da reforma da Previdência sofrerá, mais uma vez, uma enxurrada de emendas, o que representa muito risco para o governo. Meses de acirradas discussões não foram suficientes para a reforma cair no Congresso quase que redonda, com apenas alguns pontos a serem alterados. O que se espera, na fase de votação, é uma colcha de retalhos, com mudanças inexpressivas das regras atualmente em rigor.
Consequentemente, todos sairão ganhando e as soluções que a reforma trariam ficarão para depois, quem sabe o próximo governo. Todos, aliás, com exceção dos que arcam com o ônus do sistema, e que são a maioria dos trabalhadores brasileiros. Estes pagarão até a terceira idade para sustentar outros. E na hora dos benefícios a que terão direito, se obrigarão a assumir novos empregos, provavelmente como subempregados, para continuar vivendo.

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