OPINIÃO DA FOLHA
Discurso único
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa em Londres, na Inglaterra, contra o que a sua equipe econômica apregoa e pratica, ao criticar os juros cobrados do consumidor brasileiro. ''O nível das taxas cobradas por bancos e empresas de crédito não é aceitável do ponto de vista lógico'', disse o presidente.
Realmente. Mas qualquer atitude para reverter este quadro tem que partir, antes, do próprio governo, para quem a redução da taxa básica de juros, em apenas meio ponto porcentual, já é um grande acontecimento. Foi o que ocorreu na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Diria-se, numa história de moral, que o exemplo deve vir de cima. Por isso, na avaliação de Lula da Silva, já ''começou a redução das taxas de juros no Brasil'', pelo fato do governo estar convencido de que a inflação foi debelada e não haver mais o risco de chegar aos dois dígitos.
Não será, com certeza, pelos juros baixos que a economia sofrerá algum tipo de risco. Por enquanto, nestes primeiros meses de governo, o que ocorre é uma repetição de fatos registrados em tantos outros governos. Ou seja, o que leva a inflação para cima são os produtos e serviços controlados pelo governo, como também, com maior participação, os tributos que recaem fatalmente sobre os preços de tudo que o cidadão precisa para viver. Assim, os gêneros de primeira necessidade para alimentação, higiene e limpeza trazem embutidos em seus valores de venda no varejo o ônus que a indústria repassou para o intermediário, que este descontou no atacadista, que por sua vez tirou do varejista, e que teve que cobrar do consumidor.
São, como já foi dito, consequências de altas em itens controlados e também de novos encargos que a classe empresarial é obrigada a absorver. O combustível, por exemplo, já sofre a possibilidade de novas altas, conforme prenunciado pela ministra Dilma Rousseff, após experimentar um curto período de baixas. O telefone, mesmo com a decisão provisória da Justiça, ainda assim terá seu reajuste repassado para quem está no final da linha de consumo de praticamente tudo: o cidadão, que tentará economizar na conta da tarifa telefônica, mas estará pagando pelo aumento no quilo da farinha, só para se ter um exemplo.
É preciso ousadia, aliado a políticas. Também é preciso discurso único, levando o País para um rumo. Pois no momento em que integrantes do próprio governo já admitem rever pontos da proposta de reforma da Previdência, o presidente, em Londres, defende o texto original que o governo enviou ao Congresso. ''Qualquer proposta de mudança no projeto original terá que ter a aquiescência do governo federal, dos 27 governadores e do Conselho de Desenvolvimento Social'', disse Lula da Silva. Então, que tenha dito.





