OPINIÃO DA FOLHA
Governar por pressão
É natural que quando alguma proposta ou determinação do governo desagrade determinado segmento da sociedade, este se mobilize, desde que disponha de força e agilidade de organização, para tentar reverter a situação. Tanto é natural que se abra, consequentemente, um canal de negociação e a decisão final seja resultado de entendimentos. O ideal, no entanto, seria que todos os segmentos atingidos ou beneficiados tivessem iniciativa parecida. Não é o que acontece na questão da reforma previdenciária. Até algumas das centrais sindicais estão esquecendo que representam variadas categorias de trabalhadores, sejam da iniciativa privada ou do serviço público.
O resultado é que a proposta de reforma da Previdência corre o risco de sofrer alterações, visando abrandamentos, por iniciativa do próprio autor, o governo federal. Em síntese, o que se propunha mudar não beneficia ninguém. O trabalhador da iniciativa privada estaria sujeito as mesmas regras de hoje, que são exageradamente duras, em comparação às condições dos trabalhadores do serviço público. As distorções são inclusive revoltantes, no valor das aposentadorias e outros benefícios e também no tempo de serviço para se chegar à aposentadoria.
O pior é que a iniciativa do governo é um recuo, fruto de pressão exercida pelo servidor público. Ou seja, o mesmo governo que discursou duro no momento da apresentação da proposta, agora cede sob pressão. Não se discute neste espaço se as razões de quem reclama são procedentes. Mas a Previdência, da forma como está, não deve continuar. E se a correção de algumas distorções, como a de casos de aposentadorias precoces, elimina parte da crise que faz das contas do sistema previdenciário algo de impossível contabilidade, então que se processe esta mudança. Se o teto da aposentadoria, diferenciada e benéfica no caso do servidor público, pesa nessas contas, então que se procedam mudanças para que as mesmas regras vigorem para todos os trabalhadores.
Em realidade, não deveria haver dúvidas entre os parlamentares. Os eleitores que os colocaram na Câmara dos Deputados ou no Senado podem ser servidores públicos, como podem ser trabalhadores da iniciativa privada. Em razão desta condição, seu voto e sua defesa, nos pronunciamentos da tribuna, deveriam ser para uma proposta que objetiva a igualdade entre estas duas diferentes categorias de trabalhadores. Até poderia ser assim, se os parlamentares também não gozassem de muitos benefícios nas aposentadorias.
Eis o Brasil da mudança. O mesmo que ocorreu em governos anteriores se repete. E o País corre o risco de continuar sob a regência dos maestros da república dos lobistas. A moral da história é que as medidas palacianas contemplam quem se organiza e pressiona com mais força. Boa parte da sociedade está a descoberto, pois nem força de organização possui.





