OPINIÃO DA FOLHA
Por um pacote desenvolvimentista
A notícia pega o leitor meio de surpresa: ''Governo prepara pacote desenvolvimentista''. Porém, já nas primeiras palavras do texto, a informação sobre a procedência da informação causa estranheza e decepção: Lisboa, em Portugal. Mas o consolo é que o anúncio é feito pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior brasileiro, Luiz Fernando Furlan, que em terras distantes participava terça-feira de reunião para a formação da Associação de Dirigentes de Vendas de Portugal. ''Quando voltar da viagem à Europa, o presidente Lula vai apresentar um conjunto de medidas que vai surpreender'', disse o ministro aos jornalistas.
Lugar e momento impróprios para anunciar algo tão necessário e importante. O correto seria um anúncio com pompa, na base das solenidades oficiais, como se faz normalmente e contemplou programas como o Fome Zero e o Primeiro Emprego, entre alguns outros. Mas entende-se o motivo. Na verdade, Luiz Fernando Furlan sentiu-se obrigado a passar uma mensagem de Brasil viável, quando acuado por um empresário português sobre a impossibilidade de investir no País com taxas de juros de 50% ao ano para as empresas. ''Essas medidas vão proporcionar um desenvolvimento nos próximos meses muito mais favorável do que a arrumação das contas. Um país não pode ter como finalidade eterna o controle dos gastos'', justificou o ministro aos portugueses. Ele também estimou que no segundo semestre deste ano, a taxa de juros deve cair para um número que não ultrapasse um dígito acima da inflação.
Eis uma típica situação de saia justa do governo brasileiro. Quando a conversa é direta com o empresariado estrangeiro, o tom do discurso, tão bem ensaiado pelas autoridades da área econômica para justificar a alta taxa básica de juros em vigor no Brasil, é diferente. No Brasil, estes dizem que a redução drástica dos juros estimulará a inflação, discursando contra a realidade que mostra retração do consumo e medo de endividamento para compras. Na verdade, o consumidor já está endividado, mas devido aos juros do cheque especial, recurso que ele teve que usar para cobrir as contas, em época interminável de redução da renda. Lá, em Portugal, não se pode viver eternamente de arrumação da casa e os juros estão projetados para cair.
Não resta dúvida. A notícia que vem de lá é melhor do que a que recebemos aqui. Mas, infelizmente, esta situação causa apreensão: acreditar na notícia de lá ou na de cá? O ideal seria que existisse um único Brasil, ou melhor, um único governo para um Brasil igual. O Brasil representado lá fora, com posições firmes, precisa ser o mesmo que abriga milhões de pessoas, todas elas na expectativa de melhoras que tardam a chegar.





