OPINIÃO DA FOLHA
Vitória amarga
Desde o fracasso que representou o envolvimento militar no Vietnã, culminando com a derrota, os Estados Unidos, uma potência bélica por excelência, precisavam de uma guerra vitoriosa. O Iraque aparecia, assim, como uma possibilidade fantástica para resgatar a auto-estima de um país que usou quase sempre a força das armas a fim de se impor ao mundo. Havia, sem dúvida, certo temor, porque se enfatizou demais o poderio militar iraquiano. Entretanto, até o mais pessimista dos observadores apostaria que os Estados Unidos sairiam vencedores na luta contra o governo de Saddam Hussein.
O resultado final do confronto, portanto, não surpreendeu. A facilidade com que as tropas da chamada coalizão (Estados Unidos e Grã-Bretanha) chegaram a Bagdá e dominaram a capital iraquiana foi até inesperada. Afinal, falava-se tanto da disposição dos militares de Saddam para enfrentar os inimigos que se esperava uma resistência maior. Não foi o que aconteceu e o sr. George W. Bush pôde anunciar, em 1º de maio, que a escalada militar tinha terminado, com um enorme sucesso. Resgatava-se, assim, a auto-estima dos norte-americanos. Os ''guardiões'' do mundo se ufanavam de haver, de novo, imposto sua vontade a um país rebelde.
A vitória, porém, começa a se tornar incômoda. Os iraquianos, que caíram tão facilmente, reagem agora. Cerca de 30 soldados norte-americanos já morreram, atacados por rebeldes, desde que foi declarado o fim da guerra. As tropas dos Estados Unidos continuam no Iraque e dificilmente poderão sair de lá tão cedo. Pior, os norte-americanos enfrentam a tão temida guerra de guerrilhas, a ação inesperada de forças que surgem do nada e que provocam baixas. Não é uma guerra normal, se é que se pode usar este adjetivo para qualquer tipo de ação bélica. É o enfrentamento contra um exército invisível, similar ao que ocorria no Vietnã, com os vietcongs.
Para complicar, o inimigo principal, Saddam Hussein, continua a assombrar os americanos, agora através de mensagens radiofônicas. A proclamada vitória não garantiu nada aos vencedores que sabem que não podem deixar o Iraque sob pena de um retorno do temido ditador. Estão presos, agora, à armadilha surgida de sua própria inabilidade em analisar as situações. Escravos da teoria da força, não conseguem entender que os povos vencidos não recebem com satisfação os exércitos que invadem e destroem seu país. Ignorantes dos sentimentos alheios, os Estados Unidos vivem, hoje, o drama de outros conquistadores, em todos os tempos. E correm o risco de ver transformada em mais dor e luto a aparente vitória conquistada no Golfo Pérsico.





