OPINIÃO DA FOLHA
Critérios iguais para todos
Se valer o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seu ministro Ricardo Berzoini, a reforma da Previdência proposta pelo governo federal deverá passar pelo Congresso Nacional sem que os seus pontos centrais sofram grandes mudanças. Mas esta é apenas uma cogitação, e bastante vaga. Com dezenas de emendas parlamentares e uma crise dentro do partido do presidente, o PT, além da ameaça de greve dos servidores públicos a partir de hoje, a reforma tornou-se uma incógnita.
A mais grave distorção da legislação atual está relacionada justamente com estes que pretendem deflagrar uma paralisação, para pressionar o governo a ceder em alguns pontos. Mas basta relacionar um exemplo mencionado pelo ministro e pelos partidários de Lula da Silva, para concluir que mudanças são necessárias: ''Queremos que a aposentadoria aconteça numa idade mais justa, como é em outros países. A regra de transição tem por objetivo evitar que o trabalhador tenha o incentivo de se aposentar precocemente e prosseguir a carreira dentro do serviço público''.
A afirmação faz referência à idade de aposentadoria do servidor público, gritantemente distante das condições exigidas de um trabalhador da iniciativa privada. Berzoini destaca que o atual modelo permite que trabalhadores jovens no caso mulheres de 48 anos e homens de 53 anos se aposentem e passem o resto da vida sendo remunerados pelo Estado. E o ministro vai mais longe: o sistema previdenciário do Judiciário também poderá ser modificado, partindo do princípio que ''nenhum segmento pode pedir um tratamento diferenciado''.
Eis uma posição forte, coerente e justa. Provavelmente, longe de ser uma bravata, tomado emprestado do presidente Lula da Silva um termo que ele utiliza constantemente, desde o tempo do sindicalismo: bravata. E, se for assim, deste ponto, da reforma da Previdência, devem ser iniciadas as mudanças prometidas em campanha pelo presidente.
É oportuno que fique claro para todos, inclusive os servidores públicos: quando o eleitor brasileiro colocou no poder central do País este governo, através do voto livre e direto, o que este manifestou foi a sua confiança na promessa de mudança. Não foi para experimentar um operário no lugar de um intelectual que Lula da Silva foi eleito.
E quando as propostas de mudanças repercutiram de um lado a outro do Brasil, o eleitor a entendeu como algo para corrigir distorções e tornar as condições de vida mais justas para todos. Foi também um grito contra as diferenças, presentes em praticamente tudo, desde a distribuição de renda até os critérios da aposentadoria. É bom que todos entendam isso.





