OPINIÃO DA FOLHA
Todos são prioridades
É difícil o governo federal acelerar o ritmo da reforma agrária, como bem disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na quarta-feira aos 27 coordenadores nacionais do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), que se encontraram com ele em Brasília. Tanto quanto tem se mostrado difícil para o mesmo governo agilizar as mudanças apregoadas em palanques durante a campanha eleitoral.
O Brasil diferente é um sonho e uma necessidade de todos. Dos sem-teto, dos sem-emprego, dos sem-estudo, dos sem-expectiva de um futuro melhor, dos sem-comida e também dos sem-possibilidade de investir em seus negócios. Portanto, a lista de prioridades é extensa, e nela se incluem os sem-terra.
Evidente, segmentos mais organizadores e com melhor poder de negociação têm a oportunidade de levar suas reivindicações para mais perto do poder, mas nem por isso estes devem merecer melhor atenção das autoridades. O entendimento é de que todos exigem, mesmo que ainda calados devido à desmobilização que atinge seus setores, ouvidos e olhos atentos e especiais do governo.
A leitura da situação nacional é crítica, e a dificuldade do governo de Lula da Silva em acenar com propostas para equacionar os mais variados problemas que afligem a sociedade tem refletido nas pesquisas de opinião sobre a popularidade do presidente. Este, sabiamente, disse em mensagem direta aos coordenadores do MST que não pedia, no encontro de quarta-feira, uma trégua aos movimento dos sem-terra, pois o governo não tutela os movimentos civis, de acordo com as regras num estado de direito.
E avisou que o desrespeito à lei e a violência no campo é ruim para o movimento e para o governo. No entanto, só no Paraná chega a quase 30 o número de áreas ocupadas por famílias integrantes do MST. Natural que, diante desta situação, inclusive com saques registrados em outros estados, praticados por famílias de sem-terra, o pânico cresça no outro lado. Assim, enquanto um grupo de entidades representativas do setor agropecuário nacional pede uma audiência com o presidente Lula da Silva, para debater suas reivindicações e, talvez, até propor sugestões para a questão agrária, no interior do Estado de São Paulo um fazendeiro monta sua milícia de 15 homens armados e treinados para enfrentar invasões.
O conflito agrário, infelizmente, tira o poder do governo de planejar mudanças, mesmo com medidas emergenciais, para os demais setores da sociedade. E este governo, mesmo antes do movimento dos sem-terra iniciar ação, já se mostrava lento, não por culpa do presidente, mas por inabilidade de alguns de seus assessores diretos.
Então é preciso cuidado, pois interpretará a população, através de seus representantes organizados, que só com pressão a mudança prometida em campanha acontecerá. E Brasília, desta forma, será a capital dos lobistas e das pressões, quando deve ser, mais do que nunca, o grande centro das decisões.





