OPINIÃO DA FOLHA
Não há mais tempo a perder
Eis uma informação para ser levada a sério pelas autoridades da área econômica: o salário médio real encolheu R$ 145,00 em um ano, descontada a inflação do período analisado. O valor representa mais da metade do salário mínimo em vigor no País, de R$ 240,00. Trata-se do resultado de mais um estudo divulgado durante a semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cuja conclusão central é de que o mercado de trabalho piorou em maio, com aumento na taxa de desemprego e queda significativa na renda dos ocupados. Ou seja, ruim para os empregados, muito pior para os desempregados.
Pelos dados do IBGE, a desocupação atingiu 12,8% em maio e esta é a maior taxa desde março do ano passado. Quanto à queda no rendimento médio dos que mantêm vagas no mercado do trabalho, o instituto também aponta uma taxa histórica: foi de 14,7% em maio, comparada ao mesmo mês de 2002, representando a menor renda apurada desde quando este tipo de estudo foi iniciado pelo IBGE, em outubro de 2001.
Já se fala, inclusive, em fundo de poço. Uma das vozes é de Ruy Quintans, um professor do Ibmec Business School: ''Esses dados refletem o fundo do poço da economia a que chegamos no final deste semestre''. E quando ele acrescenta sobre perspectivas de melhora, a estimativa mostra um percurso ainda longo a ser vencido. Segundo o professor, a recuperação da economia deve ocorrer a partir de agora e será muito lenta. Pelo menos até setembro deste ano, que não se espere reflexos desta recuperação na mudança do índice de desemprego.
Não é possível esperar tanto tempo, se o fundo do poço já está não só visível, mas paupável. Também não há como acreditar em milagres, que consertem a economia brasileira da noite para o dia. Algumas ações que já deveriam ter sido tomadas pelas autoridades econômicas ainda nem aconteceram no plano das cogitações. Ainda que tarde, elas deveriam estar agendadas para anúncios futuros pelo presidente da República, pois pelo menos teriam poder de impacto, desde que bem estruturadas, e poderiam influir no comportamento do mercado. Seria o efeito psicológico, levando a sociedade a acreditar que a possibilidade de melhora existe, é real, possível de ser tocada e que vale à pena lutar por ela.
Mas, por enquanto, os mais destacados planos lançados pelo governo beneficiam diretamente a área assistencial, com uma modesta, porém, importante exceção: o crédito para os pequenos empreendedores. É pouco e só chega a ser importante por ser a primeira ação mais voltada para o investimento, e não para a emergência de apenas matar a fome, por exemplo.
Hora de ação, correndo atrás do tempo perdido. Senão os dados futuros a serem divulgados pelo IBGE serão piores. Por este último, anunciado durante a semana, o quadro é péssimo: ''A retração da renda está provocando o fenômeno de diminuição da população não economicamente ativa (fora do mercado de trabalho)'', mostra o levantamento. E, assim, não há assistencialismo que comporte tantos beneficiados.





