OPINIÃO DA FOLHA
Por um projeto político
Já passa da hora do governo federal anunciar medidas concretas e acertadas, pois o risco que o País corre é do surgimento de movimentos reivindicatórios nem sempre coordenados e justos. Claro e incontestável que manifestações com as mais variadas causas são direitos garantidos aos cidadãos constitucionalmente. E protestos expressam revoltas com determinadas situações, como a falta de emprego, de terra, de moradia, de condições mínimas para viver numa sociedade. Assim, manifesta-se com panelaços, caminhadas, buzinaços, faixas, cartazes, greve de fome, paralisações, abaixo-assinados e palavras de ordem. Ou, em alguns casos, com invasões de áreas públicas e privadas, quebradeiras e vandalismo não pertinente à causa. Instala-se, dessa forma, a desordem em nome de uma luta que poderia ser justa.
Quase seis meses após a posse, o governo federal ainda enfrenta o seu período de acamamento nos palácios de Brasília. Certo que a situação herdada da gestão anterior foi de descalabro, caracterizado pela paradeira do País em praticamente todas as áreas. A economia, carro-chefe do desenvolvimento, andava de costas num período de transição apertado pela alta do dólar. Então o acamamento até se justificava, principalmente pelo fato da equipe de Luiz Inácio Lula da Silva assumir o comando político e administrativo do Brasil na sequência imediata dos oito anos de Fernando Henrique Cardoso.
Entende-se que o curto período de transição não permite a leitura e a análise do quadro que se assume. Haveria necessidade de mais algumas semanas de estudos, após a posse, mas nunca de mais alguns intermináveis meses. Porém, junho já chega ao fim, e, por enquanto, somente alguns programas de caráter assistencial foram lançados, quando encabeçam a lista de prioridades projetos que definam o rumo do País. O que é preciso ser feito hoje para tirar a economia brasileira do adormecimento? Como viabilizar a abertura do mercado de trabalho em tempo recorde, para evitar que cerca de 30 mil pessoas (no primeiro dia de inscrições) disputem algumas poucas vagas com salário de cerca de R$ 280,00 por mês? Como evitar que alguns movimentos organizados, como é o caso do MST, deflagre invasões em todo o território nacional como forma de pressão sobre as autoridades?
Na segunda-feira, o governo despertou para o grito do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, o MST, e convocou reforços para a equipe que tentará negociar com esta parcela expressiva da população nacional. Excelente, eis a possibilidade de solução para um problema brasileiro. Mas há muitos outros, dentre os quais o desemprego, que atinge também os sem-teto, sejam eles moradores de áreas urbanas ou rurais. Não basta saciar estes com cestas básicas, pois trata-se de paliativo para cobrir um período de emergência.
É preciso muito mais. Para ter emprego, e não cesta básica, há necessidade de um projeto político, que contemple as áreas essenciais para o desenvolvimento. A começar por um modelo econômico.





