OPINIÃO DA FOLHA
Mais do que apenas matar a fome
O Paraná tem um milhão de pessoas abaixo da linha de pobreza, de acordo com critério estabelecido pelo governo federal no Programa Fome Zero. Este é o resultado de um levantamento feito pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e divulgado esta semana, durante entrega do relatório final da pesquisa ao governador Roberto Requião. Cabe lembrar que o Estado tem população de cerca de 9,5 milhões de habitantes, o que torna a faixa populacional incluída abaixo da linha de pobreza de acordo com o relatório, 1,03 milhão de pessoas bastante elevado.
Quem são estas pessoas? Conforme o Programa Fome Zero, são aquelas que recebem menos de um quarto do salário mínimo por mês, já descontados gastos com moradia e acrescentada renda por autoconsumo, que seria, entre outros exemplos, a produção de alimentos para consumo próprio. Ao transpor esta informação ao cotidiano dos paranaenses, o quadro que se tem é o de pessoas que estão no nosso convívio, rotineiramente trabalhando ao lado de outras, em situação pouco melhor. Um colega de trabalho, a empregada que faz os serviços domésticos, o porteiro do edifício.
Mesmo que estes tenham remuneração maior que um salário mínimo, alguns são única fonte de renda de famílias numerosas. E ao calcular a renda per capita de cada membro dessas famílias, chega-se a números extremos, até com resultados de valor inferior ao estabelecido pelo Fome Zero. E se estes, que ainda conseguem garantir um emprego, já estão nesta situação, imagine o leitor outros que nem atividade remunerada fixa têm.
O que deve ser considerado é que a base do estudo do Iapar é o Censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Trata-se do mais recente levantamento para a obtenção dos dados necessários a este tipo de pesquisa, o que torna o trabalho do Instituto Agronômico do Paraná um importante instrumento científico. Entretanto, cabe às autoridades estarem cientes que em dois anos e meio de 2000 para junho de 2003 os reflexos dos desacertos políticos nacionais e estaduais podem ter tornado o quadro da pobreza mais insuportável ainda.
O desemprego aumentou e a qualidade de vida, consequentemente, sofreu queda expressiva. A renda do trabalhador também sofreu achatamento. E hoje quem recebe cerca de R$ 500,00 brutos por mês é obrigado a se considerar satisfeito. Com este salário, o trabalhador que chefia uma família de quatro pessoas e não dispõe de outras rendas passa mal o período de 30 dias. Se obrigado a pagar aluguel, paga por uma casa apenas razoável para o seu padrão cerca de R$ 150,00. Para a alimentação e os gêneros básicos de higiene e limpeza, gasta outros R$ 200,00 economizando muito nas compras. E paga ainda energia e água. O que sobra não dá metade do um quarto estabelecido pelo Fome Zero. De onde se conclui que o Brasil não precisa somente de programas emergenciais. O País precisa de políticas que acertem os rumos de milhões de pessoas.





