OPINIÃO DA FOLHA
Meio por cento, sem viés!
Muito barulho para uma bomba de pavio longo e efeito retardado, senão inócua. E, ainda por cima, sem viés. Entenda-se de economia. Por uma questão de circunstância, imagina-se que os participantes da reunião de ontem do Comitê de Política Monetária (Copom) sejam experts. Após uma reunião que começou às 11h40 e foi encerrada no início da tarde, por unanimidade eles decidiram reduzir em 0,5 por cento a taxa Selic, após dias de expectativa e apreensão do mercado.
''As projeções de inflação indicam convergência para as metas. Em razão disso, o Copom decidiu, por unanimidade, fixar a taxa Selic em 26%, sem viés''. Este é o teor da nota que foi divulgada após o encerramento da reunião.
Nem o teor excessivamente técnico da mensagem esconde que, para a área econômica do governo federal, juro básico baixo é risco de inflação. Discurso antigo, aliás, que nestes últimos anos somente foi recusado na curta gestão do vice Itamar Franco, quando este assumiu a presidência da República. Naquela época, a taxa Selic sofreu duas expressivas reduções, a primeira de quase 28% para 23% e a segunda dos 23% para 17%. Muito diferente dos 0,5% anunciados ontem.
O passado mostrou que aquelas reduções, ao contrário do que se projeta agora, não causaram nenhuma disparada inflacionária. Pelo contrário, colocaram a economia num ritmo ponderável, de recuperação e possibilidade de crescimento. O trajeto só foi cortado devido à mudança de governo, com a política econômica de Fernando Henrique Cardoso enterrando as expectativas de desenvolvimento do País a partir de um modelo econômico bem escorado.
Outra diferença entre o agora e o ontem: na época de Itamar, foi o próprio governo que determinou as reduções da taxa de juros básica. Durante as duas gestões de Fernando Henrique Cardoso e nestes primeiros meses de Luiz Inácio Lula da Silva, o papel é outorgado a técnicos, que compõem o Comitê de Política Monetária. Seria, então, a taxa Selic e a sua interferência na inflação uma questão política? Evidente que sim, pois ela é componente básico de uma forma de planejar a economia brasileira, ou seja, uma política econômica. E políticas, não a partidária, mas a de programas e projetos para fazer o Brasil avançar, só acontecem com vontade de quem comanda o País.
Mas os juros altos devem interessar a alguém, como já debatido neste espaço. E enquanto a vontade política não se manifesta no governo, dentro do próprio governo são repetidas as decisões que mantêm a paradeira do mercado, registrando-se, dia após dia, números que apontam para a queda de renda do trabalhador, a redução do consumo, a retração no varejo e tantos outros balanços negativos.





