OPINIÃO DA FOLHA
O risco da manipulação
O episódio envolvendo os estudantes londrinenses na luta contra o reajuste da tarifa de ônibus urbano exige, imediatamente, uma rigorosa investigação. Há fortes boatos sobre o uso da massa estudantil por parte de grupos políticos que estariam preparando terreno para as eleições de 2004. Ontem, notícias que chegavam a este jornal, através de telefonemas, davam conta que alguns destes grupos preparam para a madrugada desta segunda-feira novas mobilizações, inclusive de piquetes nas portas das garagens das empresas de ônibus, além de estimular os proprietários de vans a colocarem seus veículos nas ruas nesta segunda-feira.
O ideal é que agora, definida a questão da liminar que pedia a volta da tarifa ao preço antigo, de R$ 1,35, o impasse venha a ser discutido sem desordens. E que a autoridade policial, sem usar de violência, mas na sua prerrogativa de manter a ordem, aja com propriedade para que acontecimentos trágicos como o de sexta-feira, quando uma pessoa portadora de deficiência foi atropelada durante protesto nas proximidades do terminal de transporte coletivo, no centro de Londrina, não venham a ocorrer.
Longe imaginar que os estudantes, cuja maioria é adolescente, tenham capacidade de mobilização durante um fim de semana para armar piquetes de madrugada. Também longe imaginar que estes tenham potencial de negociação com proprietários de vans para colocar tais veículos nas ruas. Portanto, a suspeita é de que a mobilização dos estudantes, que imaginam estar na luta por uma causa justa, esteja sendo aproveitada por oportunistas políticos. E, para estes, não importa o sangue derramado, até porque eles jamais aparecerão. Com certeza, usarão, na próxima campanha eleitoral, imagens e discursos deste epsódio triste, culpando este ou aquele.
Cabe então aos líderes do movimento estudantil um posicionamento urgente. Cabe também a estes uma firme postura política, de forma a controlar os estudantes a não cairem no conto do bilhete aplicado pelos manipuladores. Pois, os aproveitadores sairão não só ilesos do episódio, como também usarão a luta que não foi feita por eles em suas pretensões políticas.
E às autoridades londrinenses e lideranças classistas e organizadas, sem exceções, a sociedade faz uma cobrança séria: a omissão marcou todo o movimento de protesto contra o reajuste da tarifa de ônibus. Adolescentes, com pouca formação política, foram jogados na boca do leão. É hora do mea culpa. Londrina precisa de posição firme, pois caso contrário o descontrole levará ao caos. E, sem controle, se hoje usam os estudantes, amanhã usarão os artesãos, os ambulantes e todos que têm uma causa a defender.





