A guerra em nome da paz
Hamas e Jihad Islâmica passam a ser os dois piores inimigos do mundo, conforme o apelo feito pelo secretário de Estado americano, Colin Powell. E o são, naquele contexto, o do conflito sem fim entre palestinos e israelenses. Tanto quanto o são, em contexto mais próximo da população brasileira, os grupos organizados do narcotráfico que matam e barbarizam no Rio. E devem existir pelo mundo tantos outros inimigos, promovendo a morte, a dor e o sofrimento de povos inteiros. Seriam, portanto, os membros das Farc, na Colômbia, menos nocivos do que os integrantes de Hamas e Jihad Islâmica? Para os Estados Unidos sim.
Quem patrocina a guerra em nome da paz deveria dispor de argumentos convincentes para apelar ao mundo contra dois inimigos tão distintos, quase visíveis. Saddam Hussein e o Iraque assim eram e, ao que se sabe, foram derrotados pelo país que hoje pede a ajuda à comunidade internacional. Cortar fonte de financiamento de Hamas e Jihad Islâmica sim, da mesma forma que para as Farc. Combater o terrorismo sim, seja no Oriente Médio ou na Colômbia, tanto quanto no Brasil, onde este mal ocorre a partir da força que a impunidade concedeu ao crime organizado. Tanto que o narcotráfico já age como Estado, graças ao equivocado perfil de poder paralelo dado a este por algumas autoridades e certos veículos de comunicação.
Saddam, o inimigo dos norte-americanos, representava, bem ou mal, um povo. E foi derrotado. O Hamas e seus membros e simpatizantes seriam mais difíceis de serem vencidos? Volta-se a repetir: quem patrocionou a guerra em nome da paz pode, mais uma vez, usar da força para dar condições de se discutir a busca de paz. Os contextos são pouco diferentes. A causa, se foi tão nobre quanto no caso do Iraque, a ponto de se calar a voz da Organização das Nações Unidas (ONU), deveria da mesma forma ser nobre para Israel e Palestina.
A idéia que se propaga, com o mapa da paz patrocinado por Colin Powell, é de que desta vez existe vontade política. Aliás, como das outras vezes, quando as tentativas de paz foram vãs. Então não há somente dois inimigos prejudicando as negociações, como anuncia o secretário de Estado norte-americano. Podem haver mais, que agem não como terroristas, mas como autoridades pouco empenhadas na busca de soluções. É uma dúvida que persegue a humanidade e quem poderá esclarecê-la são as partes envolvidas diretamente no conflito. Israelenses e palestinos, tanto quanto Powell, devem uma justificativa para o mundo: há vontade de acabar com o conflito?

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