OPINIÃO DA FOLHA
Economia em ritmo lento
Ora é para manter a inflação sob controle, ora é para evitar uma corrida na poupança, eis a justificativa em uso entre os que são contrários à redução da taxa básica de juros (Selic), hoje em 26,5% ao ano, pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. O que se pode imaginar deste posicionamento, num País que há quase uma década está com a economia praticamente parada? Por acaso uma corrida às compras por via dos financiamentos? Se for esta a preocupação, fiquem tranquilos os tecnocratas que defendem a manutenção dos juros em patamar elevado, pois que nem demanda para isso existe neste mercado de consumidores sem dinheiro e preços exorbitantes, graças aos efeitos de uma política econômica estagnante, teimosamente bancada pelo governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso.
É oportuno lembrar que antes dele, na gestão do ex-presidente Itamar Franco, a taxa básica de juros foi por duas vezes reduzida em porcentuais expressivos, e nem por isso houve explosão inflacionária. Na primeira, a redução foi de cerca de 5%, caindo de quase 28% para 23%, representando queda de 17,8%. Na segunda, meses depois, a redução foi dos 23% para 17%, com queda de 26%. E poderia ocorrer mais redução, caso a política de Itamar Franco tivesse continuidade. Mas a era FHC decidiu pelo contrário, por longos oito anos de dois mandatos, herdando o governo Luiz Inácio Lula da Silva um mercado em total desequilíbrio, devido a explosão dos juros.
Deveria a lição estar servindo para os herdeiros. Mas não é o que pensa a cúpula do Banco Central. O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, precisa saber que a manutenção da taxa básica elevada institucionaliza a evasão de rendas do Brasil. Pois, para o investidor, mais compensa abrir uma empresa no exterior em qualquer dos paraísos fiscais existentes para receber dinheiro enviado do Brasil pelas contas CC-5, e repassar na forma de empréstimo a uma empresa brasileira, que compra os títulos cambiais do Banco Central, faturando sem esforço algum 26,5% ao ano de juros.
O Brasil perde assim o capital e os juros. Ganha quem se vale deste recurso. E não há, infelizmente, nem rigor nem vontade política para reverter esta situação e a institucionalização da evasão da poupança nacional de forma legal.
Baixar a taxa básica, não em meio ponto porcentual ou pouco mais, mas em índice expressivo, pode fechar esta torneira. E, conforme exemplo do passado, não resultará em mais inflação do que esta que, apesar dos indicadores oficiais razoáveis, tortura o consumidor na ponta do varejo. Quem criou estes mecanismos altamente suspeitos? O que fazem eles hoje? Seriam, por acaso, beneficiários de tais mecanismos?
Tais questões exigem respostas imediatas. Para se entender o atual quadro econômico, basta destacar que, durante a semana, o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), órgão ligado ao Ministério do Planejamento, reduziu a previsão de crescimento da economia brasileira em 2003, de 1,8% para 1,62%, devido aos juros altos, queda na produção e ajuste de estoques na economia, cuja causa seria o desaquecimento no consumo interno e nos investimentos. De acordo com o instituto, no primeiro trimestre deste ano, o PIB teve retração de 0,1% em relação ao três últimos meses de 2002, e crescimento de 2% na comparação com igual período do ano passado.





