OPINIÃO DA FOLHA
Chega de discurso
O analfabetismo ainda é um grande fantasma a rondar o território brasileiro com a marca da vergonha pelo dever não cumprido. De prefeitura a prefeitura e Estado a Estado, até bater na porta dos palácios que abrigam a estrutura do governo federal, todos têm a sua dose de culpa. O Brasil do analfabeto, infelizmente, é uma realidade, conforme levantamento divulgado durante a semana e publicado por este jornal nas edições de ontem e hoje.
O problema é antigo e poucos programas de resultados foram desenvolvidos. E quando chegaram a ser lançados, a execução foi cercada de falhas e equívocos, por culpa principalmente dos interesses políticos que envolveram, na maioria das vezes, boas propostas. E os técnicos que trabalhariam a alfabetização, consequentemente, se tornaram menos importantes que os ''donos'' dos projetos.
Mas não é somente esta a ponta a exigir urgentes correções no Brasil. A educação, toda ela, tem sofrido de falta de atenção. A começar pelos mestres, cuja remuneração é abaixo da expectativa na maioria das localidades e atinge o absurdo em tantas outras. Com certeza, os profissionais que compõem esta categoria, em sua maioria, formam um time de abnegados e redobram esforços para ensinar da melhor maneira possível.
Milagres, porém, não acontecem. São milhares de professores sem recursos financeiros para cursos e reciclagens. Às vezes, o orçamento apertado nem permite a compra de um bom livro. E ainda chegam a algumas escolas públicas com receio de serem atingidos por balas perdidas, para ministrarem aulas a um grupo de alunos que, em seu cotidiano, tem a violência como uma lição marcante e, não raras vezes, mais forte que a ensinada pelos mestres.
Foi para este quadro da educação que o governo anterior sancionou a sua lei do voluntariado, anunciada pelos aparelhos de tevê como solução. Os personagens das histórias mostradas na propaganda oficial, entretanto, jamais enfrentaram salas com goteiras, vidraças quebradas com pedras e portas arrombadas pelos delinquentes. A realidade é outra. E não haverá profissional que não seja da educação disposto a colocar o seu carro no bairro onde o número de homicídios é elevado para ensinar basquete. Melhor assim, pois o papel de ensinar é do mestre, e que seja ele muito bem remunerado.
Quanto à alfabetização, a iniciativa privada, em determinado momento da história, até tentou cumprir papel de governo. Salas de aulas foram montadas inclusive em canteiros de obras. Salões paroquiais foram transformados em escolas para adultos. Essa fase acabou, embora boas iniciativas ainda existam. Mas toda proposta boa, quando não repercute junto a quem deveria cumprir este papel, o Estado, se fragiliza. Então, agora, chegou a vez do governo. O fim do analfabetismo não pode ficar somente no discurso.





