Oportunismo ou disposição?
Um velho dito popular é lembrado no momento em que o presidente do Senado e ex-presidente da República, José Sarney (PMDB-AP), acena com discursos simpáticos ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva e até se arrisca a prognosticar para a sucessão de 2006, em defesa de uma reeleição do atual presidente.
''Pau que nasce torto morre torto'', eis a frase que costuma, ainda hoje, ser proferida em conversas de botequim. E não por ser proferida em balcões manchados de gordura e poeira, limpados com esporádica insistência com pano encardido, que a frase pode ser considerada infundada. Ela é tão ou mais consistente que o balcão, embora limpado de minuto a minuto, conserva o seu aspecto de velho e imundo. Caso contrário, não estariam ali, diariamente, os habituais frequentadores, apoiando seus cotovelos nele, enquanto absorvem cervejas e degustam tira-gostos, no mesmo momento em que falam da inflação, do pronunciamento do presidente Lula da Silva e também dos ex-presidentes, inclusive Sarney.
Reportagem publicada ontem por este jornal mostra Sarney se derramando em elogios ao governo de Lula da Silva. Manifestação tão flagrante, a ponto de merecer espaço destacado em jornais de circulação nacional, Sarney, o presidente que em passado de deplorável memória criou os fiscais de defesa da economia popular não por empenho dele, presidente, mas por fruto das circunstâncias que cercavam o País , aproveita-se do acordo selado com o governo, via PMDB, para propor apoio e parcerias visando as eleições municipais de 2004 e, pensando longe, quando nem a atual gestão alçou vôo, as eleições gerais de 2006.
Prova clara. Ele e também o governo, se cair no canto da sereia são políticos para pensar somente em política partidária. O acordo selado na semana passada foi para o governo somar forças aos seus projetos de governo, o que incluiu uma variedade de políticas. Para a saúde, para a educação, para a agropecuária, para a segurança, para as ações sociais e, enfim, para tocar este País, engatado em marcha de paradeira, para frente. Mas não visa política partidária, pois se foi assim, o governo errou.
''Eu acho que, se estamos participando do governo e de um acordo político, temos que construir uma unidade que nos leve também a participar eleitoralmente em coligações na maioria dos municípios, nos estados, e em nível de presidência da República, se for o caso.'' Eis a posição se Sarney.
Então, que não seja o caso. Entenda Sarney e tenha claro o governo que, nos embates partidários, acordos são feitos para garantir a aprovação de bons projetos. E supõe-se que bons projetos, quando existem bons políticos, devem ser aprovados por amigos e inimigos políticos, uma vez que visam o bem comum. Que não seja o caso, então.

mockup