Os vilões de Meirelles
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, contribuiu esta semana com mais uma ''pérola'' para o já transbordante poço de justificativas estranhas que alguns políticos costumam derramar sobre a economia nacional. Seriam, na análise de Meirelles e, provavelmente, de alguns de seus técnicos, os comerciantes e algumas das categorias de trabalhadores os novos vilões da inflação. Os primeiros por promoverem a recomposição das margens de lucro perdidas com a inflação passada. Os trabalhadores por terem conseguido reajustar salários pelos índices de preços.
Não deixa esta autoridade de ter certa dose de razão, principalmente quando se refere aos empresários remarcadores de preços. Acontece que eles são muitos, espalhados por quase todos os palmos do território nacional, vendendo de arroz e feijão a roupas e calçados, fogões a fornos de microondas, e de aparelhos de televisão a computadores domésticos de preços elevados. Vendem também carros, peças automotivas, perfumes, jóias, bijouterias, passagens aéreas ou rodoviárias, serviços diversos e, enfim, tudo o que o cidadão, em determinado momento da vida e de acordo com a condição econômica, necessita.
Desta forma, fica evidente que praticamente tudo o que se vende e compra no Brasil sofreu majoração de preços nos últimos anos, acompanhando a desvalorização do real frente ao dólar. E não foram somente os comerciantes os responsáveis por esta situação. O processo de produção sofreu com a elevação das tarifas, principalmente as essenciais, como a energia e a comunicação. A água também apresentou saltos nos preços, cujos efeitos, até por questão de prática econômica, não foram absorvidos pelos fabricantes. E assim ocorreu com o combustível, com o custo do frete, com a despesa de pedágio.
Certo, esta corrente tem um lado mais fraco. Quando realiza pagamento no caixa de uma loja ou de um supermercado, é o consumidor que está pagando a alta da energia e da água, da mesma forma que pagará ou já pagou pelo reajuste do telefone e do combustível. O efeito é sempre cascata, e ainda não se sabe se o presidente do Banco Central conhece este processo: a tarifa sobe porque o governo autoriza; o fabricante reajusta porque paga mais tarifa; o intermediário eleva o preço porque o fabricante mudou a tabela; o varejista, já com os produtos recheados de repasses, remarca porque caso contrário sua margem de lucro despenca. E o consumidor paga, porque precisa da mercadoria.
Então, se até este consumidor é vilão, no caso de eventualmente ter conseguido um bom reajuste salarial, pela avaliação do Banco Central este País está condenado, pois todos somos vilões. Deve ser esta, sem dúvida, a forma mais fácil de governar: em vez de propor soluções, inclusive para o surgimento de uma nova prática econômica, que elimine os vilões, a receita parece ser a de apontar vilões, que deste jeito proliferarão.

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