O poder e o torcedor
A queda de braço entre alguns dirigentes de clubes, representados pelo Clube dos 13 e apoiados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), e o governo federal, revelou o maior medo dos cartolas do futebol brasileiro: perder o poder. Tudo porque o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou, no dia 15 de maio, a Lei de Modernização do Futebol e o Estatuto de Defesa do Torcedor. E é justamente o Estatuto, criado para, entre outras coisas, facilitar o acesso e dar segurança e conforto ao torcedor nos estádios, que está apavorando uns poucos cartolas brasileiros, acostumados com lambanças e desonestidade. Eles alegam ser inviável colocar em prática o Estatuto.
O artigo 19 foi apontado pelos dirigentes como ponto polêmico e pivô da confusão armada na quarta-feira. Os clubes ameaçaram paralisar o Campeonato Brasileiro se o governo não cedesse nesse ponto. O que diz o artigo 19, que causa tanto medo nos cartolas? O texto prevê a responsabilização dos dirigentes, bem como dos organizadores, pelos prejuízos causados ao torcedor que decorram de falhas de segurança nos estádios, independente da existência de culpa.
Os clubes alegam que não podem ser responsabilizados pelos incidentes nos estádios. Um dirigente chegou a dizer que merece o mesmo tratamento dispensado ao presidente Lula, numa clara posição de que a seriedade e a honestidade passam longe de seu clube. Conforme o cartola, Lula não pode ser responsabilizado pela família de uma pessoa morta num acidente numa rodovia federal. Esquece o dirigente que o governo federal tem o dever de manter as rodovias em bom estado. E conforme o caso o cidadão tem sim o direito de ser ressarcido na Justiça. E esquece também que ele, o dirigente, é o principal responsável pelo evento neste caso, os jogos de futebol e pela segurança do torcedor nos estádios.
A pressão que o governo exerceu nos clubes, através do Estatuto do Torcedor e da Lei do Futebol (que prevê a transparência nas administrações dos clubes), já é um alento ao torcedor. Afinal, a renda dos jogos é uma das fontes de arrecadação dos clubes. É o torcedor, por meio do ingresso que compra nas bilheterias, que ajuda a pagar parte das despesas do seu time. Mas até hoje, os clubes com raríssimas exceções nada fizeram para retribuir essa ''ajuda'' ao torcedor. A maioria dos estádios está caindo aos pedaços e não oferece infra-estrutura adequada para uma partida de futebol. E quem sofre com isso é o torcedor.
Um País que passa por transformações na política, na economia e na atitude do seu povo, precisa também ser sério no futebol, o principal esporte nacional. Chega de Euricos, Ricardos, Eduardos e Fábios. O futebol brasileiro também tem que evoluir e o torcedor tem que ser tratado com respeito por dirigentes sérios e honestos.

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