Luta contra a impunidade
Evento ontem em Foz do Iguaçu, para marcar o 18 de maio, Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infanto-Juvenil, serve de alerta sobre a situação de risco em que vivem cerca de 3.500 crianças na região da tríplice fronteira, de acordo com levantamento feito em 2002 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Foz, aliás, foi escolhida pela própria OIT, em parceria com outros organismos brasileiros, para ser o local de realização do evento e, por consequência, de uma campanha contra o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes. A relação da cidade brasileira com o tema, infelizmente, está explícita: não por estar na fronteira, mas por ser turística, Foz do Iguaçu registra elevado número de casos. E os que não estão nos registros policiais, nos conselhos tutelares, nas varas da infância e da juventude, aparecem aos olhos da população e dos visitantes na forma de meninas que caem na prostituição.
Acobertadas ou pressionadas por quadrilhas diversas, inclusive de falsificação de documentos, essas meninas trocam os sonhos da adolescência pelos embalos de uma vida difícil, onde a droga é acessível e o dinheiro nem sempre é no valor prometido. Os exploradores, afinal, é que ficam com os lucros.
Reportagem publicada ontem por este jornal, na página 9 do Primeiro Caderno, ilustra esta situação. E mostra o drama de Lia, 14 anos, e Sandra, 13 anos, ambas apresentadas ao leitor com nomes fictícios, que têm como local de trabalho a marginal da Avenida Costa e Silva, considerada na cidade uma espécie de corredor do sexo pago. Ali, as meninas se obrigam a relações de até R$ 5,00 e dispõem de crack a R$ 2,50 a pedra. Ou de Carla, que diz ter 19 anos, como também da loura Caetana, com cara de menina, mas que mente ser maior de idade.
Lembra a reportagem que a instituição do 18 de maio como data de luta contra o abuso e a exploração sexual infanto-juvenil, é uma homenagem à pequena Araceli Cabrera Crespo, que em 1973, quando tinha apenas 8 anos de idade, foi drogada com LSD, espancada e estuprada por membros de uma família tradicional do Espirito Santo. Isso é pouco diante de tantos outros casos que ocorreram depois daquele 18 de maio. Alguns não chegaram ao conhecimento do público, outros foram noticiados, mas a maioria, como no caso de Araceli, ganhou os arquivos da crônica policial como mais um exemplo de impunidade. É hora de lutar por mudanças.

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