A lei da selva no século 21
Delineiam-se as linhas da ocupação iraquiana. Os Estados Unidos, os principais responsáveis da coalizão (os países que participaram, direta ou indiretamente, da invasão ao Iraque) anunciam a partilha. A idéia é dividir o Iraque em três partes, uma para cada um dos países que mais colaboraram com a aniquilação de Saddam Hussein. Até a Polônia, país que pouco destaque tem no cenário internacional, pode ganhar uma parcela no loteamento que os Estados Unidos estão promovendo. De quebra, o governo de Varsóvia, que enviou soldados para participar da invasão ao Iraque, já está sonhando com posições de maior destaque no plano europeu, como aliado preferencial dos norte-americanos.
Em pleno século 21, observam-se as mesmas arbitrariedades de épocas passadas, quando os países mais fortes subjugavam os menos poderosos e impunham sua lei, sem qualquer preocupação de ordem moral ou ética. A pretensa civilização atingida pelo ser humano, ao longo dos séculos, parece esquecida. As duras lições de duas absurdas guerras mundiais, o sacrifício de incontáveis vidas, no Vietnã, as tragédias que aconteceram no final do século passado na antiga Iugoslávia, nada disto, aparentemente, fez modificar o modo absurdo de agir das grandes potências (no caso, hoje, da única superpotência restante após o desmantelamento da União Soviética).
Até agora, não foram comprovadas as alegações que deram causa à invasão do Iraque pela coalizão. As armas de destruição em massa, que pretensamente o regime de Saddam Hussein teria em seu poder, não apareceram. Membros do governo Bush ainda insistem em que vão descobri-las. A credibilidade de uma eventual descoberta delas é similar à que se pode ter quando a polícia anuncia ter descoberto droga em veículos de eventuais suspeitos. Se os norte-americanos encontrarem alguma coisa agora, as dúvidas sobre a validade da descoberta serão totais.
Entretanto, e o que se observa no modo de agir dos norte-americanos, isto já não importa mais. Os Estados Unidos e seus aliados ganharam a guerra. Agem como vencedores, dominadores, fazem o loteamento, estabelecem normas para o que chamam de redemocratização, sob critérios que não aceitam discussões. A ONU continua deixada totalmente de lado, ao tempo em que empresas norte-americanas vão ganhando contratos milionários para recuperar o que as bombas daquele país destruíram no Iraque.
E o mundo assiste, sem condições de sequer discutir. A era do mais forte, a lei da selva, está de volta ao mundo do século 21.

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