OPINIÃO DA FOLHA
O peso do dólar
A complexidade da economia faz sair de um pronunciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em pleno Dia do Trabalho, a afirmação de possível intervenção do governo no mercado de câmbio. Pelo menos foi isso que o presidente deixou entender, num pronunciamento que deixou dúvidas. E qual seria o objetivo dessa medida? Na ótica dos que não são especialistas no assunto, é claro, para que a cotação da moeda norte-americana caia mais. Pois foi a alta, intensificada a partir do segundo semestre de 2002, que tornou a economia brasileira em ponto de caos. A mais grave consequência, por sinal sentida desde aquele tempo até hoje pelos consumidores, e em grau nem menos e nem mais tolerável agora, é a subida nos preços de praticamente tudo o que se deve comprar para o cidadão viver socialmente. É evidente, na linha das especificidades e nos complexos mecanismos que movem as coisas da economia, outras consequências, tão ou mais graves do que aquela que pesa diretamente no bolso do consumidor, são registradas por culpa da disparada da moeda norte-americana no ano passado e início deste.
Mas eis que no pronunciamento do presidente Lula da Silva a intervenção parece ser ao contrário. E explicarão alguns segmentos da economia que ele tem razão, enquanto outros pensarão diferente. A eventual intervenção do governo federal no mercado de câmbio, portanto, é para evitar que a cotação do dólar continue a cair. A queda, de acordo com o governo, prejudicaria as exportações. E este governo, disse Lula, é responsável também pela estabilidade econômica.
Difícil, portanto, entender. Em relação às exportações, interpreta-se, na leitura mais simples que se faça, que a queda do dólar significa a valorização do real. E tendo a moeda brasileira mais peso, automaticamente o produto nacional fica mais caro no exterior. O temor seria, ao que se supõe, de perda de mercado externo, com consequências na balança comercial. Quanto à estabilidade, o governo terá que se explicar melhor. Por enquanto, sabe-se que a queda nas exportações trará reflexos negativos para o mercado interno, pois menor entrada de dinheiro estrangeiro e produção exportável encalhada significam catástrofe econômica.
Não haveria, portanto, um plano emergencial de aquecimento da economia nacional desvinculado do mercado externo. Este espaço tratou recentemente das medidas iniciais do governo de Lula da Silva, cujo enfoque não é a geração de divisas. Embora essenciais, os planos, até o momento, são para combater a fome, assegurar melhoria nas condições de vida dos portadores de debilidade mental, garantir seguro para o produtor rural em caso de perda da safra e, anunciado para ser lançado em breve, mais um pacote de benefícios para a área da educação. Sem dúvida, são programas emergenciais. Que, aliás, devem ser lançados e mantidos concomitantemente com tantos outros planos fundamentais. Caso contrário, o dólar sempre a moeda norte-americana será sempre prejudicial para os brasileiros, suba ou desça a sua cotação.
Ontem, o presidente Lula da Silva, em novo pronunciamento, tentou eliminar dúvidas. Com mais clareza, afirmou: ''O governo não vai meter o dedo na questão do dólar''. Por um dia, no entanto, a impressão foi outra.





