Um grito de alerta
''Nós chegamos a fotografar uma criança usando chupeta, com no máximo dois anos, colhendo batata.'' O depoimento da Procuradora Regional do Trabalho da 9 Região, Margareth Mattos de Carvalho, é um grito de alerta para a sociedade em geral e às autoridades. Embora não tão gritante quanto em algumas regiões do País, o trabalho infantil, em suas diferentes formas, também ocorre no Paraná.
Recentemente, este jornal abordou neste mesmo espaço a questão cultural que leva famílias tradicionais a entenderem o trabalho de crianças como um componente da educação. Em reportagem especial publicada ontem, na data oficialmente instituída como Dia do Combate ao Trabalho Infantil no Serviço Doméstico ontem também foi o Dia da Trabalhadora Doméstica , também o vice-presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Paraná (Fetaep), Antonio Zarantonello, mantém uma linha de pensamento parecida, na qual os próprios pais encaram o trabalho como um componente da educação.
Mas a situação mais grave no campo, conforme a Fetaep, é a dos filhos dos assalariados rurais. Estes trabalham como bóias-frias e, por não terem onde ou quem quem deixá-los, levam as crianças junto. De acordo com o depoimento do vice-presidente, essas pessoas trabalham por produção e os filhos acabam trabalhando também para somar renda.
É neste aspecto que se encontra importante contribuição, na forma de artigo, da mesma procuradora Margareth Mattos de Carvalho, para quem, desde 1993, o trabalho infantil no Brasil se apresenta em queda, mas ainda é uma realidade cruel, ''de proporções consideráveis, que traduz uma realidade de desigualdades''. E embora as iniciativas por parte do governo e de entidades da sociedade civil ocorram em proporção expressiva, na tentativa de combater o problema, a procuradora alerta para uma lacuna que considera melindrosa e de difícil apreensão, que é ''a evidência trágica do perigo e da penosidade do trabalho infanto-juvenil nas carvoarias, no corte da cana-de-açúcar e na colheita do sisal''.
A questão é o trabalho doméstico, que segundo a procuradora mobiliza cerca de 400 mil meninas brasileiras, mas que de acordo com a Organização Internacional do Trabalho, em reportagem de ontem deste jornal, chega fácil a 500 mil. Estariam estas meninas dispersas em lares que não são os seus, senão por adoção, conforme escreve Margareth Mattos de Carvalho. ''Mas como é sempre bom ter uma casa, para muitas delas, com certeza, a casa dos patrões é um lar e um lar aprazível, talvez até um refúgio que não se quer perder, nem mesmo se sujeitas a jornadas de trabalho muito longas, superiores à média observada para o conjunto das crianças e jovens trabalhadores''.
Eis o calo a ser extirpado. Os problemas nacionais são muitos e alguns têm proporções monstruosas. Este, o do trabalho infantil, é um deles.

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