OPINIÃO DA FOLHA
Bondade que move o mundo
O espírito humanitário move o mundo. Diariamente, milhões de pessoas escondidas no anonimato estendem seus braços para pequenos gestos que representam grandes ações, na tentativa de amenizar sofrimentos alheios.
A voz suave ao telefone é de um grande coração que ouve mais do que fala, oportunizando quem pede socorro de se manifestar sobre os fantasmas que o atormentam. É o que fazem os atendentes do CVV, espalhados por praticamente todo o território nacional, da mesma forma que ocorre em outras partes do mundo por iniciativa de diferentes organizações de voluntários.
Ou a expressão cândida no rosto da trabalhadora, que sacrifica o seu salutar direito ao minuto de ociosidade para ajudar alguém, com uma orientação, um curso rápido de bordado, uma contribuição em espécie para somar recurso capaz de levantar uma creche, é a forma deste anônimo dizer que está vivo, portanto, é sensível aos problemas que afetam a todos.
O trabalho voluntário anônimo, enfim, por não ser instituído e estar diretamente relacionado com o sentimento humanitário que todo ser vivo carrega dentro dele, resiste vigorosamente às transformações que ocorrem n mundo.
Nem a informática, expressada no imóvel e frio monitor de um computador, consegue ficar isenta. As salas de bate-papo, utilizadas por alguns para intenções inadequadas, servem para tantos como pontos virtuais de amizade. E há também nestas salas, além de espaços onde as pessoas possam conversar sem malícia sobre assuntos diversos, incluindo saúde, educação, cultura e polêmicas que o cotidiano apresentam, opções para os que necessitam de mais do que uma conversa. Não que esta seja a maneira mais recomendada, pois nem sempre a frivolidade dos bytes vence obstáculos sentimentais. Mas é uma opção que simboliza a força do humanismo mesmo diante do avanço da tecnologia.
E, nesse contexto, só o que se condena é o uso da boa vontade alheia para solucionar problemas que não são coletivos. Esse risco, infelizmente, existe. Transformar a necessidade das pessoas serem humanas em lei, por exemplo, é condenável. A lei do voluntariado, criada pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, tem um pouco desse pecado. Se surgiu, teve o objetivo central de estabelecer normas para que as entidades assistenciais e as instituições governamentais pudessem acolher voluntários sem a ameaça de uma eventual demanda trabalhista no futuro.
Claro, se o objetivo foi este deve haver falsos voluntários. E casos dos que usaram da bondade para alimentar interesses próprios também devem ser frequentes. Mas a lei criou distorções absurdas: transformou bancários em professores de educação física, empresários em pedagogos, faxineiros em pedreiros. Em vez de uma rede de ajuda, criou o quebra-galho. E, de tão precário, perde força e devolve aos anônimos, aqueles que agem por conta própria de acordo com o que mandam seus corações, as glórias de um mundo feito por pessoas de bem.





