OPINIÃO DA FOLHA
Rigor necessário, mas perigoso
O duro apelo do Papa João Paulo II em sua 14 carta pontifícia (Encíclica), publicada ontem, deve gerar desconforto entre milhares de fiéis de todo o mundo. Não que o enunciado possa ser contestado, pois, ao contrário, segue o que determina a Igreja e por se tratar de normas doutrinais históricas, supõe obediência por parte dos católicos.
A Encíclica, no entanto, com o título ''A Igreja vive da Eucaristia'', que como o Papa esclarece é o mistério central da fé e da vida cristã, denuncia abusos que teriam ocorrido desde que entrou em vigor o Concílio Vaticano II, no início da década de 60, movimento que caracterizou a modernização da Igreja. E entre os abusos, provavelmente, João Paulo II deve incluir os casos de divorciados que voltam a casar e os casais que vivem em uma união livre. Estes não estariam em estado de graça e persistiriam em um manifesto pecado grave. Assim, não podem receber a comunhão.
Claro, a intenção do Sumo Pontífice é de recuperar o culto da eucaristia segundo a tradição mais rigorosa, conforme informaram ontem fontes eclesiásticas. A princípio analisado como profundamente conservador, o texto inclusive manifesta posição contrária sobre a inovação ecumênica. Pede a condução das normas litúrgicas na celebração eucarística com grande fidelidade e proíbe a concelebração da liturgia da eucaristia com cristão não-católicos.
Evidente, alguns movimentos inovadores trouxeram prejuízos para a Igreja, mas outros tiveram forças para renovar o conceito dos fiéis sobre a Igreja a que pertenciam, o que em outras palavras, cá para os leigos, significa renovação de fé. O próprio Concílio Vaticano II, para os países do terceiro mundo, levou a Igreja para mais perto dos povos de diferentes nações, ao trabalhar as questões sociais de forma madura e com solidez admirável. E se por algum momento essa atuação levou às variantes políticas, tomemos o exemplo do Brasil do regime militar para defender que, em alguns momentos, houve de fato necessidade de ação política.
Os abusos, especificamente nesse caso, foram cometidos pelos eventuais sacerdotes que trocaram o altar pelas tribunas parlamentares e foram levados à esta condição galgando os degraus das igrejas. Mas dos inúmeros que se tornaram políticos, somente alguns poucos caíram neste pecado, pois a conduta da maioria, inclusive nas tribunas, tem sido exemplar.
Também não se deve imputar aos que seguiram por outros caminhos o estigma de abusados. Alguns destes se tornaram verdadeiros artistas, mas assim o fizeram para atrair para a Igreja a grande legião de jovens que, descontentes com uma comunicação rígida e conservadora, buscar nos padres-cantores o caminho da fé. E quanto aos divorciados e não-casados, a questão é polêmica tanto do ponto de vista religioso quanto no aspecto sociológico. E se há polêmica, o tema deve ser tratado com menos rigor.





