OPINIÃO DA FOLHA
Antes que seja tarde
O marido Sérgio tem medo que sua esposa, a dona de casa Marisa, faça uma laqueadura. Receia doenças na mulher por causa da intervenção e acha que é errado, que Deus não concorda com isso. Conforme reportagem especial publicada na edição de ontem da Folha, o casal acabou de ganhar uma filha, somando cinco filhos entre o primeiro e o segundo casamento de Marisa. Ela admite que jamais fez planejamento familiar e reclama dos ''comprimidos'', que fariam mal a sua saúde. O marido tem salário de cerca de R$ 500 por mês. É a única renda da família.
O Paraná já teve exemplos esquizofrênicos de controle da natalidade, inclusive a de um prefeito que trocava cesta básica por laqueadura. Nada errado, caso as mulheres que se submetessem à intervenção já tivessem filhos, fossem devidamente esclarecidas para o que estariam fazendo e, sobretudo, uma idade que não permitisse arrependimentos futuros. Mas até jovens mães de cerca de 20 anos, formadas num padrão de vida que impedia conhecimentos, caiam na história da cesta básica que regulava a quantidade de filhos dos casais daquela cidade.
Embora chocante, o exemplo acima torna evidente a necessidade de um trabalho aprofundado de planejamento familiar. Porque é realmente inaceitável que se faça controle através de barganha. O pão e o circo enganam a fome e a alma, mas os seus efeitos têm curta duração. E haverá, eternamente, a necessidade de mais pão e mais circo, num círculo que vicia o suposto beneficiado e o torna cada vez mais exigente: mais pão e mais circo, em periodicidade menor e com mais qualidade. É o mesmo que barganhar cesta básica por laqueadura. Embora de resultados imediatos, esta fórmula desastrosa e totalmente equivocada deixa rastros inapagáveis.
Sabe-se que bons trabalhos de planejamento familiar são feitos por instituições e entidades diversas. Só em Londrina, os exemplos são variados, podendo-se mencionar o feito no Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina, por equipe multidisciplinar. Também no âmbito do poder público, a administração municipal, através de secretarias específicas, atende considerável número de mulheres com orientações sobre planejamento familiar.
Mas, não há dúvida, é preciso muito mais. Números mostrados na reportagem da edição de ontem são provas disso. Só na Maternidade Municipal, a maioria das parturientes são mulheres pobres que têm muitos filhos e 71% delas não fazem planejamento familiar, segundo pesquisa do setor de serviço social da unidade. Este levantamento, sem dúvida, deverá servir de base para uma ação incisiva do poder público. A base de todo o trabalho a ser feito é a conscientização dos casais e isso, apesar de todos os avanços da humanidade, ainda é uma dívida das autoridades para com a sua população.
Não é um trabalho dispendioso, só exige determinação. E se faça antes que seja tarde. Antes até que alguém reinvente um plano de trocar laqueadura por cesta básica. Então será o desastre.





