Guerra das trapalhadas
Quantos soldados norte-americanos morreram nestes últimos dias vítimas de bombardeios do próprio exército norte-americano ou de acidentes envolvendo aeronaves dos Estados Unidos? O mais recente epsódio, divulgado por estes dias, envolveu um caça e um comboio. O de cima alvejou os de baixo, embora avançassem para os combates sob a mesma bandeira dos EUA.
Surge, neste ponto, uma questão polêmica. A tecnologia da guerra é inquestionável, tornando os mísseis inteligentes e os alvos praticamente indefensáveis. O mesmo ocorre com o terreno onde se travam as batalhas, que excluindo o difícil avanço pelo deserto, faz desta investida de George W. Bush contra Saddam Hussein uma guerra muito mais fácil do que as anteriores.
A resistência, já em solo iraquiano, também é fraca. Alguns poucos focos de soldados fiéis ao presidente do Iraque resistem. Mas é grande o número dos que se renderam, tendo-se a considerar epsódios trágicos, como o dos subordinados que mataram seus comandantes para poder se entregar aos norte-americanos. A população do país dominado também não é obstáculo. Vítimas de um regime de arbítrio, populares saudam as tropas invasoras e perdem a compostura a cada remessa de ajuda humanitária que chega.
O que faz, então, os soldados de Bush se matarem em acidentes de helicópteros ou bombadeios de caças do próprio país contra o seu comboio? O que faz os soldados de Bush agirem com violência contra um povo que, sem armas, parece receber os invasores como salvadores? Tropas inglesas comportam-se diferente dos norte-americanos. Enquanto a primeira desarma e aprisiona os inimigos, respeitando convenções internacionais, a segunda atira. Em relação aos populares, a primeira ganha simpatias e a segunda responde à essa estranha hospitalidade com truculência.
Não há, ainda, teoria científica para responder as questões que aqui se colocam. Mas é impossível negar: a facilidade nos combates, numa guerra para a qual os soldados de Bush foram exaustivamente preparados, levou ao Iraque homens vendados, que se não têm inimigos para matar, matam-se a si próprios senão fisicamente, no mínimo moralmente. Eis uma guerra que ficará marcada na história com certeza ironia, apesar de toda a tragédia que ela esconde.

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