Reflexo da impunidade
Tolerar é verbo proibido quando seu uso se aplica aos envolvidos na criminalidade, pois estes são intolerantes e quando decidem agir não poupam nem aqueles que pouco ou nada têm. Ontem, uma mulher foi vítima de tratamento cruel e humilhante em sua própria casa em Londrina.
Moradora de um bairro da Zona Leste habitado por uma maioria de famílias carentes, ela teve a sua moradia invadida por uma gangue e, feita refém, foi obrigada a permanecer por horas com os bandidos, servindo a eles como se fosse uma empregada doméstica. Só depois pôde se desvencilhar, mas ao contrário de ficar em casa e somar os prejuízos, teve que deixar o lar que não se sabe com quanto sacrifício conseguiu erguer. A casa, horas depois, foi incendiada pela gangue.
Não é a primeira vez que um drama igual ao desta mulher é noticiado. Outras famílias de Londrina tiveram suas casas tomadas por bandidos, alguns deles envolvidos com o tráfico de drogas. E funciona quase como uma lei, silenciosa e acatada prontamente: quando os bandidos chegam e pedem a casa a alguma família, esta não pensa duas vezes. Sai e deixa tudo o que conseguiu comprar durante anos de trabalho. É praticamente com as roupas do corpo que pai, mãe e filhos abandonam seus lares por pressão de gangues.
Não se pode imaginar que ações desta natureza sejam promovidas por bandos organizados, pois se houvesse uma ética para a criminalidade, jamais poderia se supor que traficantes, assaltantes, arrombadores e outros contraventores agiriam pelo puro prazer de maltratar, desfazer e barbarizar para subtrair de quem pouco tem. E se reza realmente algum código no mundo do crime, o que se houve é que um traficante de drogas dificilmente seria um dependente e um assaltante não apontaria a arma para o seu vizinho, por maior que fosse a inimizade entre ambos.
Não há, portanto, crime organizado por trás das ações de achaque contra os moradores de comunidades carentes. O que vigora é a tranquilidade de pequenos bandos, formados nos próprios bairros, agindo por conta da impunidade. E que fossem as grandes quadrilhas as responsáveis por estes crimes. Da mesma forma, se agem com tamanha folga contra a população, é por terem a certeza de que dificilmente terão que responder por tais atos.
Não cabe ao bandido, seja de menor ou maior periculosidade, decidir se barbariza esta ou aquela vítima. Pelo contrário. É dever da segurança pública prever que ninguém é obrigado a viver sob achaques, a ponto de ter que abandonar o lar.

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