Antes tarde do que nunca
Admitir o risco de uma epidemia de dengue hemorrágica em 2004, por mais assustador que seja, é um avanço. Não há dúvida: melhor seria que a realidade fosse diferente da que se apresenta e a possibilidade de agravamento da situação passasse ao longe. Também é inegável que a estas alturas o que deve ser dito e feito não pode sofrer censura e restrição, mesmo havendo a possibilidade da preocupação com a doença transformar a vida do cidadão em um pesadelo.
Melhor assim, pois existia desde o ano passado o risco de uma epidemia da forma clássica da dengue. Mas o dimensionamento equivocado do problema por parte das autoridades sanitárias, somado à total despreocupação popular, resultaram no que agora se registra: a epidemia da doença na forma clássica já é uma realidade e o risco de epidemia da dengue em sua forma mais grave, a hemorrágica, está mais próximo do que se imagina.
Por isso o ato de admitir a gravidade do problema torna-se postura madura e necessária. Pois dele surgirão os debates, as avaliações sobre os procedimentos já adotados e o mais importante, a busca de solução. É o que ocorre neste momento, ainda que tarde, pois uma vida já se perdeu e outras duas mortes podem ter como causa a dengue hemorrágica, embora confirmações neste sentido não tenham sido feitas. São quase oito mil casos suspeitos da doença e mais de 1.500 confirmações, ocorrendo, segundo a direção de epidemiologia da Secretaria Municipal de Saúde, a média de 400 notificações diárias de suspeitas de dengue.
Uma das medidas anunciadas pela Secretaria de Saúde do Estado é a criação de uma comissão responsável pela elaboração de um plano preventivo, a ser colocado em prática a partir de 21 de junho. Este grupo tem o papel de evitar a epidemia da dengue hemorrágica no próximo ano. Infelizmente, para este ano pouco mais do que já é feito será possível, uma vez que, de acordo com as autoridades sanitárias, a epidemia já está instalada. Ainda assim, cabem as precauções do poder público e da comunidade. A esta, fica a missão de manter as práticas domésticas para evitar a proliferação do mosquito causador da dengue. São pequenas ações, que resultam em benefícios coletivos.
Quanto ao poder público, cabe o papel é de garantir a saúde da população, mesmo que se considere instalada uma epidemia, com estrutura capaz de proporcionar atendimento de excelência. Como também contribuir fiscalizando e punindo quem cria condições que permitam a manutenção do problema. Reportagem na edição de ontem, por exemplo, mostra que pneus foram mantidos a céu aberto por muitos dias, servindo de criadouro do mosquito.

mockup