As outras guerras
Uma curta produção de tevê levada ao ar recentemente mostrou um lado da guerra que normalmente é deixado escondido, pois o profissional de jornalismo fisicamente envolvido nas batalhas, por estar próximo das áreas de conflito, é obrigado a avaliar as chamas das explosões dos mísseis em seus alvos como material de interesse das agências de notícias. O drama, em alguns casos, não é trabalhado com enfoque humano e transforma-se em espetáculo, feito o pão e o circo representados em suas formas figurativas e também injustas: enganam a fome e a mente.
A reportagem de poucos minutos que pareceram roubados de outros tantos minutos dedicados às chamas e ao movimento das tropas anglo-americanas , mostrou uma exposição de fotos e textos improvisada na calçada de uma rua qualquer de um lugar do mundo. Organizada por um ex-combatente da primeira guerra do Golfo, as fotografias, chocantes, estampavam corpos de crianças em estado terminal. Iraquianas, elas estavam morrendo de câncer. Seriam, de acordo com o organizador da exposição, vítimas dos efeitos do urânio empobrecido dos mísseis usados naquela guerra, por sinal o mesmo que compõe os de agora. Assunto sem repercussão, como se o leitor e o telespectador não tivessem interesse por notícia tão importante. E não se viu nada mais sobre os efeitos da guerra.
Uma pneumonia desconhecida assusta o mundo e também o Brasil, onde o pesadelo da dengue, especialmente em Londrina, tira o sono e atormenta a população. Doenças que por algum período adormeceram controladas ressurgiram. Algumas na forma mais resistente, como é o caso dessa pneumonia. A explosão dos mísseis contamina os céus do mundo com o urânio empobrecido e outros componentes nocivos. Claro, a população mais afetada é a da área de conflito, mas armas tão poderosas podem provocar efeitos em extensão e em gravidade desconhecidas.
Mas há uma outra guerra, a dos produtos geneticamente modificados. Não seria puritano e ingênuo imaginar que estes podem também ter seus efeitos, talvez nocivos, embora debate de tal enfoque seja sempre polêmico e inconclusivo. E no direito de usar o raciocínio dos simples mortais, com permissão de equívocos, diz-se que quem interfere na natureza fabrica pessoas, produz mísseis, modifica plantas e dá início à guerra. Doenças como a Aids, a dengue e a pneumonia desconhecida, no entanto, continuam matando tanto quanto as bombas. Talvez suas origens sejam as mesmas e o mundo esteja enfrentando uma guerra química e biológica de bastidor, além da outra guerra, a de matar para viver.

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