Mínimo demais
O primeiro salário mínimo do governo Lula da Silva, anunciado ontem, embora represente um adicional de 20% na renda mensal do trabalhador não contempla as necessidades da família brasileira que vive com esta faixa salarial. O aumento é bem-vindo sobretudo por conter um porcentual muito superior ao dos últimos anos, mas não é o suficiente para alimentar, vestir e proporcionar condições básicas de vida, principalmente no atual momento, quando praticamente todos os produtos indispensáveis da alimentação, higiene e limpeza trazem em seus preços as sucessivas majorações determinadas pelos fabricantes, intermediários e varejo desde o período de transição do governo federal, no final do ano passado.
O PT justifica que o governo não pode avançar no valor do mínimo, pois é o que está previsto no Orçamento da União. Essa argumentação, infelizmente para os trabalhadores, é real e legal. E nem os discursos do presidente Lula da Silva, feitos desde o período de campanha eleitoral, podem agora reverter esta situação. Na época, o então candidato defendia a proposta de dobrar o valor do salário mínimo, mas a promessa era feita com um prazo mais longo: até o final de seu mandato. Assim, os 20% de agora podem representar o começo de um programa de elevação do mínimo. Poderia ser 25% agora, talvez 30%, mas cabe lembrar que o Orçamento de 2003 foi aprovado no ano passado. Talvez por entender esta situação, o valor anunciado ontem recebeu aprovação das principais centrais sindicais do País.
Este quadro, porém, não isenta o governo federal de adotar medidas urgentes para garantir que o aumento represente algo no bolso do trabalhador brasileiro. É provável que os 20% já estejam diluídos nas compras das necessidades básicas, o que significa afirmar que o reajuste não permitirá folgas. No máximo, representará menos sufoco na hora de comprar e pagar as contas.
O PT passa por uma fase de brigas internas. A questão salarial tem no senador Paulo Paim, do Rio Grande do Sul, um adversário. Este defende um mínimo atrelado à moeda americana, sugerindo o valor de US$ 100. E reclama que, apesar de ter a carreira política especialmente voltada para a luta pela elevação do salário mínimo, agora, quando o governo é de seu partido, nem ao menos foi consultado. Eis, portanto, uma briga por boa causa. Brigar por cargos e por privilégios é frágil, apesar de distorções gritantes neste campo. Brigar por melhores condições para o trabalhador é nobre.

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